Homem Quieto

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Comunicando-me com o mundo de minha workstation Oniria.

A companheira de Vivi Morbi, nesta cena, vem da mente do sueco  Stieg Larsson , romancista criador da trilogia Millenium. Ele já não compart...

A companheira de Vivi Morbi, nesta cena, vem da mente do sueco Stieg Larsson, romancista criador da trilogia Millenium. Ele já não compartilha da existência conosco, porém, a sua obra permaneceu e perdurará. Stieg criou Lisbeth Salander, uma desajustada diagnosticada como incapaz. Embora isso, ela é uma junkie de informática, hacker reconhecida no submundo da computação e uma investigadora extraordinária. Desde criança, chocou-se com a incompreensão das pessoas com as quais foi obrigada a conviver - como educadores, um psiquiatra e, depois de adulta, um tutor pervertido.
 
A trilogia Millenium obteve boa avaliação do público e da crítica, tornando-se um Bestseller mundial. Recebeu adaptações cinematográficas tanto na própria Suécia como em Hollywood. Para mim, ambas foram satisfatórias - e seguindo a opinião mais clichê: o livro é melhor. Lisbeth e Vivi têm dois elementos em comum: ambas são fictícias e têm estilos de vida alternativos. Porém, ao passo que Lisbeth é explosiva e tem dificuldades para administrar afetos, Vivi é ponderada e amorosa com seus familiares.
Várias tentativas no momento do esboço. Estava difícil encontrar uma decisão final.
Os Morbis estão sob uma maldição: durante gerações, é escolhida uma nascida menina para servir às vontades de entidades malignas e, assim evitar a eliminação da família. Nesse pesado fardo, resta a fé em um dia atingir a liberdade - um sonho distante, na verdade. A fé de Vivi é agir acreditando na possibilidade do êxito. A esperança permanece sendo cuidadosamente trabalhada para não se tornar uma crença. Na crença, Vivi estaria cega, pois teria a certeza da realização. Algo desligado da realidade. A luta é constante e os propósitos são calculadamente perseguidos.
A folha aguentou as aguadas. Méritos do sketchbook.
Vivi e Lisbeth vestem-se excentricamente. Desafiam os "normies" descendo escadarias sem desviar o olhar do horizonte. São classudas e excelentes em se permitir diferenciar do mundo "careta". Afinal, é assim o modo de agir de todos os integrantes de subculturas em torno do mundo. Os gostos e atitudes consideradas "estranhas" aos cidadãos ordinários são justamente o diferencial de suas personalidades. Compartilho desses aspectos das duas personagens. Sou um homem com uma certa idade, porém, não pretendo deixar pelo caminho os traços da minha formação de caráter.
Essa duplinha alegrou minha tarde de sábado.
Mas voltando à Lisbeth... Stieg Larsson toca em um tema bastante delicado. Caminho em ovos com isso porque também me incluo no assunto. O tema é o trauma. A personagem lida com graves feridas em sua história. Por ser calada e introspectiva - e com a dificuldade de se abrir emocionalmente - acabou sendo maculada por este mal seguidas vezes. As pessoas nos dizem para abandonarmos o passado e seguir em frente, superar, etc. Porém, quando se diz para "virar a página", estamos ignorando o fato de que alguns parágrafos de nossas vidas vão nos machucar capítulo após capítulo, ou até a palavra "FIM".

Em "O Livro de Ouro da Mitologia - Histórias de Deuses e Heróis" (Thomas Bulfinch - Ed. Agir [2015]) é possível obter informações ...


Em "O Livro de Ouro da Mitologia - Histórias de Deuses e Heróis" (Thomas Bulfinch - Ed. Agir [2015]) é possível obter informações gerais sobre mitologias orientais. Porém, não chega ao milenar Xintoísmo japonês. Em "Para Entender as Religiões" (Ed.: Ática [2000]) o tema é arranhado em um pouco de suas tradições, aspectos visuais, divindades e simbologias - uma porta de boas-vindas e introdução aos ligeiramente curiosos.
 
Na leitura estafante de "História do Japão - Origem, Desenvolvimento e Tradição de um País Milenar" (ACES [1995]) nos deparamos com uma linha do tempo desde as civilizações japonesas pré-históricas, aos acontecimentos políticos, das relações diplomáticas às conquistas militares do arquipélago asiático. Ainda assim, estranhamente não coloca atenção significativa no Xintoísmo.

Esboço. Esse foi mais detalhado.

Depreendi, com isso, da escassez de fontes informativas confiáveis deste assunto. Há mais a ser lido sobre através da Wikipedia. E foi antes de ela ser alimentada o suficiente, que aconteceu o meu aclive de interesse pelo Xinto entre 2000 e 2003 (após isso, deixei as pesquisas temporariamente à parte).
 
Os olhos estreitos de Amaterasu me acompanharam até o momento. Na cabeceira de minha cama há um grande quadro da sua gravura clássica, no momento de se revelar para fora da caverna, segundo as narrativas conhecidas. Trouxe-a para cá quando me mudei. Vejo nela um poder imponente, vivo e radiante. Há tempos me desvio de ser um adorador de coisa alguma ou mesmo um religioso pleno de fervor. Acredito, já a essa altura, estar fora de tal risco. Porém, admito encontrar no Xintoísmo uma relativa identificação.

No sketchbook, as cores.
Vejo-o como uma filosofia ou um jeito peculiar de encarar a realidade. Sou inclinado a acreditar nos espíritos de cada elemento, de cada ser sobre a Terra e na união de um todo com a Natureza. Nada de dogmas e exigências descabidas ou preceitos coercitivos. Apenas a liberdade de ser grato à vida simples, honesta e sagrada. E para completar, a belíssima mitologia Xinto. Uma história na qual podemos enxergar elementos humanos em suas deidades. E a nós, como espíritos sagrados, únicos e parte de um Universo misterioso.

Resultado final. Não precisou retoques digitais.
O Xintoísmo coexiste com todas as crenças. Não há rivalidades ou intenções hegemônicas sobre quaisquer outros grupos. Há, sim, acolhimento e respeito às individualidades. Mas as luzes do sol nascente também projetam sombras: nem tudo são flores de cerejeira. Há a supostas descendências divinas por parte de imperadores e famílias reais japonesas. Grupos sociais politicamente favorecidos, à despeito dos rituais de limpeza nos templos perfumados por incensos e nos decorados altares domésticos. Os turistas boquiabertos com as belezas das artes Xinto, talvez não percebam as presenças dos espíritos perversos transitando nos arredores. Pois há o mal, sim. Há o mal como em tudo entre o céu e a terra.

Vou da minha cozinha para meu estúdio aos sábados à tarde. Na cozinha tenho um cafezinho, uma revista para ler e algo para colocar no estôma...

Vou da minha cozinha para meu estúdio aos sábados à tarde. Na cozinha tenho um cafezinho, uma revista para ler e algo para colocar no estômago. No estúdio, a mesa de desenho, o display e meus materiais. Inspiro-me e parto para rabiscar. Essa terapia, reconhecida por muitos como hobby, traz-me saúde mental acompanhada de momentos bastante agradáveis. Os sábados são dias abençoados, em particular os chuvosos. Vivo esses momentos agora, já sendo um "senhor" da velha guarda.
 
Isso serve para arejar a mente, deixando a arte fluir e ventilar os miolos. Embora eu me concentre no processo e seja ele o protagonista, cada resultado satisfaz porque vejo as minhas ideias no papel. Folheio meus livros de referências para alimentar o repertório. Tenho muitos aqui. Folhear artbooks impulsiona a imaginação na hora de ir para a prancheta. Neles há grandes artistas, profissionais com a vida inteira dedicada à arte, demonstrando as suas habilidades e técnicas brilhantes.
Lápis solto. Estou me acostumando assim.
A mente não se alimenta apenas com imagens. Vou muito além do pictórico ao me colocar diante de uma folha em branco. Da poesia, literatura à música: tudo faz as engrenagens se moverem. A arte é presente em toda parte. Ela tem papel fundamental. Não podemos consumir entretenimento ou contemplar uma paisagem urbana sem a arte. Os veículos passam por nós dentro de arquiteturas magnificas, onde a população exibe seus vestuários cheios de personalidade.
Esse sketchbook da Dessin não para de me impressionar.
Os telefones em nossas mãos foram desenhados e eles exibem um universo digital mergulhado em projetos, layouts e percepções estéticas pensadas por um ou mais artistas. Habitamos um mundo amplo e profundo no qual qualquer percepção está pronta para identificar. Podemos distinguir uma a uma, cada criação em torno de nós, concebidas para a contemplação. Penso nas referências como uma matéria muito além da navegação no Pinterest ou em um prompt para a IA. Nossos sentidos captam e armazenam centenas de informações diariamente. Expressar isso é uma prática bastante intelectual.
 
Um exemplo claro do que digo, é a ilustração do post. Nela, vemos Vivi Morbi e Etrom em uma pose junto à já conhecida motocicleta "Vespa". Ao observar os primeiros esboços, percebi uma possível comparação com desenhos de dois artistas bem distintos. O Kazushi Hagiwara de "Bastard!" e "Flash Gordon" pelas mãos de Boris Vallejo. Um prompt rápido em uma IA pode trazer detalhes sobre ambos. Porém, minha atenção foi atraída justamente por eu não estar buscando uma releitura ou ter inspiração em lugar algum. Estava guardado no bunker de minha mente... pronto para se manifestar.
Resultado final. Fiquei contente.
Etrom é um personagem com o qual me envolverei mais e mais. Ele me faz ter boas recordações de outros tempos, quando eu fanzinava - e cometi alguns fiascos editoriais -, na metade para o final dos anos 1990. Era muito bom trabalhar com personagens em universos criados com referências bem pessoais. Sem "jornada de herói", estruturas de narrativas, etc. Lembro-me de ter como principal influência, na época, a Tank Girl de Alan Martin e Jamie Hewlett. Foram bons tempos e, de uma certa forma, estão se repetindo para mim (com todos os traumas superados). Já a Vivi, ela é uma querida e permanecerá nas suas aventuras. Observando com lentes mais precisas... até tenho uma galeria de personagens bem extensa. Mereço congratulações.

Encontro na literatura erótica uma forma de ir contra as imposições do cotidiano. Aqui está a minha desobediência particular, meu protesto e...


Encontro na literatura erótica uma forma de ir contra as imposições do cotidiano. Aqui está a minha desobediência particular, meu protesto e dissidência. Dou as costas às religiões, desafio a moral, juntamente às normas vindas de quaisquer direções. Silenciosamente, a cada leitura encontro o prazer, a cada narrativa uma paixão nasce, atinge o clímax e torna a alma mais aguçada. Afundo meu olhos nas páginas de Anais Nin, Fanny Hill e muitos outros autores de Dois Reais obtidos em um sebo vagabundo.
Esboço digital. Tomou mais tempo do que o pretendido.
Cada situação e descrição invocam sensações deliciosamente confusas dentro de mim. A imaginação imerge na mais movediça sensualidade e também no proibido - em todo o impossível fora da ficção. Conheço aventureiros sexuais, mulheres deliciosas e ousadas... ambientes impregnados de poesia, promiscuidade e liberdade. Os livros abrem caminhos para mais e mais fantasias, e então não há como voltar.
Lidenart um pouco desleixada.
Alço voos altos demais para me contentar com distâncias pequenas. Por isso, repito: encontro na literatura erótica uma forma de combater as restrições. Como um outsider, prossigo dono de minhas próprias regras... tanto na conduta, mais ainda dentro de minha mente. Sou amoral e contra os sistemas comumente defendidos por todos os grupos sociais. Sigo uma política exclusiva, constituída de convicções à prova de influências externas, rechaçando todas as tentativas de virem com discursos "prontos" para o meu lado.
Resultado final. Há uma certa simplicidade nesta imagem.
Em distinção à maioria, sustento a indiferença e o desdém diante do teatro imbecil com o qual me nego a participar. Sinto náuseas ao presenciar a cegueira de homens e mulheres no esforço constante para seguirem direitinho as "cartilhas" de pertencimento. Rebanhos enganados, massas sendo ludibriadas por ideais corrompidos desde muito tempo. Individualidades usurpadas, pensamentos mantidos em cárceres mentais sob a influência de ideologias só compreendidas nas suas superfícies. Todos enganados pela traiçoeira publicidade.
 
Seus manifestos públicos e argumentações políticas não servem para nada senão propagar os interesses de entidades realmente possuidoras do poder. Os representantes de "opostos", dizendo-se como água e óleo, na verdade servem à mesma origem. Revezam-se em ciclos, dentro intervalos de tempo calculados, em prol de interesses multibilionários. O único ato supostamente capaz de trazer a esperança da mudança (a nossa, daqui em baixo), deveria ser o voto. No entanto, já não vale de coisa alguma - o controle está sempre nas mesmas mãos.