Homem Quieto

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Há dois fatos me trazendo um certo "saudosismo" repetidamente. São sons. Primeiro, o apito do trem distante após as 20 horas. E o ...

Há dois fatos me trazendo um certo "saudosismo" repetidamente. São sons. Primeiro, o apito do trem distante após as 20 horas. E o outro acontece aos sábados: ouço o sino da igreja dobrar em torno das 18 horas. Jamais embarquei em um trem, tampouco sou católico. Não tenho recordação alguma associada, mas quando ouço esses sinais, eles me trazem sensações de familiaridade. Não creio em vidas passadas. Também duvido se as memórias intrauterinas são guardadas ou o DNA registra lembranças.
 
Mas o passado é fascinante, ainda assim. Por exemplo: sou interessado por eventos importantes dos anos 80 e os assuntos daquela época, mas eu ainda era jovem demais para extrair deles algum sentimento. Recentemente, revirei meu armário em busca de algo para ler nos meus cafés dos sábados à tarde. Os resultados das buscas foram duas revistas: uma AnimeDO 2000 e uma Henshin - ambas com o nome do mangaka Masakazu Katsura na capa. Na Henshin, uma entrevista exclusiva, na AnimeDO uma matéria breve. Quando o primeiro sucesso de Katsura estreou, não havia como eu ter conhecido.
 
Só pude ler Video Girl AI em 2001, indo do volume 01 ao 08. Foi um lançamento pela editora JBC em "meio tanko", no formatinho. É uma historinha de amor entre um rapaz ordinário japonês e uma "namorada" saída - magicamente - de uma fita VHS. Em 1989, os videocassetes e suas grandes e negras fitas VHS eram a bola da vez. E os relacionamentos afetivos, tema menos oportunista, eram parte do interesse do leitor nipônico. Masakazu é hábil em explorar relacionamentos e, também, o erotismo.
 
Embora os adolescentes fossem o nicho do mangá, há nele cenas picantes... a anatomia feminina quadro a quadro e atos diversos ocorrendo sob as cobertas. Entrei bem no clima da novelinha. A imaginação pregou peças e logo me perguntei se eu estaria relembrando algo ao folhear cada volume de Video Girl AI. Na entrevista à Henshin, o autor revela não ler nada do que ele próprio desenha/escreve e que não costuma planejar mais do que três capítulos das suas HQs, antes de as começar. Diz não ter relação estreita com os mangás e ser mais chegado à TV e ao cinema. Compra comics do Batman só para ver as artes.
 
Masakazu é quase como eu. Sou um consumidor muito esporádico de Quadrinhos. Evito muitas obras importantes e acabo desatualizado. A recente descoberta foram as tirinhas da Mafalda do cartunista argentino Quino. Conhecer Mafalda não é essencial, mas vai bem. Encontramos, na produção de Quino, muito das preocupações da década de 60/70 relacionadas à política, religião e outros temas sociais importantes - mas sob um ponto de vista ingênuo - na visão de crianças. O que torna as pautas mais contundentes. É difícil ler um volume inteiro de uma vez - logo, pego o PDF e faço um tipo de sorteio nas páginas...  
 
Quino demonstra o poder do entretenimento de massa em dialogar individualmente e com um público-alvo. Acontece a identificação e a obra se torna cultuada por grupos, subgrupos e indivíduos. Refleti um bocado sobre isso e, intrigado, perguntei-me: seria possível haver algum risco em torno das distrações? E a resposta foi a de quase nenhum problema. O lazer é bem-vindo sempre, e o entretenimento ajuda o descanso. Mas o contrário também constou nas minhas pesquisas, e ele veio do passado. Escrolar um feed, maratonar uma série ou jogar um videogame são atos que seriam condenados pelo Jansenismo.
 
A antiga tradição católica considerava os passatempos - ou os entretenimentos - como responsáveis por nos afastar dos propósitos de Deus e da salvação da alma. Isso porque eles estariam atribuídos à vaidade, ao pecado e ao desvio espiritual. O mais impressionante é que ainda há quem pense assim até hoje. De todo modo, no presente, envolver-se com a Video Girl AI de Masakazu ou mergulhar nas tirinhas da Mafalda do Quino é, além de mero entretenimento, a viagem no tempo e ao saudosismo por momentos - talvez - presenciados exclusivamente no inconsciente coletivo. É libertar a imaginação, pôr-se a pensar e manter memórias, afetivas ou não.

A cena do desdobramento final de Galilee (Clive Barker - Bertrand Brasil [1998]) me parece ser o sentimento íntimo do autor pelo seu ofício....

A cena do desdobramento final de Galilee (Clive Barker - Bertrand Brasil [1998]) me parece ser o sentimento íntimo do autor pelo seu ofício. Nela, a pessoa lírica do livro (encarregada de escrever aquela mesma história) chega a um destino solitário e destituído de júbilo. No princípio do romance, Maddox Barbarossa é paraplégico e um integrante postiço da etérea família Barbarossa. Conhecemos, então, o conflito deles com a família Geary, descrita como mais glamourosa que os Kennedy e mais rica que os Rockefeller.

Sob um encanto da matriarca Barbarossa, Maddox recebe os milagres de voltar a andar e do dom da escrita. Pois, dentre aquela linhagem, havia um poder mágico particular. Com esse presente miraculoso, o rapaz deverá esclarecer em um livro as relações entre as duas famílias. Sem esforço ou experiência, ele apenas se tornou um narrador habilidoso. Quem dera pudesse ser assim, não? Dentro da realidade, há sim, jovens com um "poder" similar. Porém, o feitiço é resultante tão somente da formação e do estudo.
 
Estão eles prontos... por completo? Talvez. A juventude se destaca, só que admitindo o amadurecimento em cada linha de seus manuscritos. Ser jovem, na literatura, está vinculado ao vigor da pouca idade e à sua energia sobeja para labutar. Quando ainda na juventude, o lusitano - e ocultista - Fernando Pessoa era entregue às letras sob os seus inúmeros heterônomos, obstinadamente produzindo de forma contínua. Seus dotes como poeta e novelista atravessavam limites: foi dele a considerada melhor tradução para a língua portuguesa do poema "O Corvo" de Edgar Alan Poe.
 
Além de tal mérito, Pessoa também foi copywriter em uma agência de publicidade. Trabalhou no primeiro slogan em português para a Coca-Cola em 1928 - "Estranha-se e depois Entranha-se". As habilidades distintas e conhecimentos específicos parecem ser anexas a muitos que viveram a literatura. Isaac Asimov, prolífico romancista da Ficção Científica, tinha inclinações como cientista antes do interesse pela escrita. Certamente, a mente dele tratou de unir ambos.
  
Qualquer um diante de sua obra maior, a "Fundação", se perguntará inúmeras vezes como fora pensada de maneira tão ousada para a sua ocasião (1950). Nela há uma complexidade de fatos e especulações tecnológicas muito antes do cinema nos entregar visualmente tais conceitos. A obra é visionária, rica em eloquentes detalhes técnicos - imaginativos - e previsões, mesmo sendo Asimov despreocupado em catalogar datas, eventos e outras circunstâncias.
 
Em 50 anos, Asimov relatou a epopeia da humanidade no espaço ao longo de 25 mil anos. Clive Barker nos trouxe clássicos do terror aos livros e ao cinema. Em Galilee, uma iluminação física/intelectual sob as intrigas entre duas poderosas famílias. Fernando Pessoa era um homem múltiplo da escrita, também um redator publicitário criativo e tradutor. Constou em sua produção vozes individuais para cada uma de suas faces literárias.
 
Talentos bastante distintos com o texto, mas compartilhando da mesma motriz: a inventividade. Trabalhar com a escrita é fazer das ideias um "Big Bang" junto ao domínio da língua como ferramenta. Esforços intelectuais hoje só dignos de êxito se propagandeados e "hypados" pelas mídias. Como o Maddox Barbarossa em Galilee, grandes talentos seguem os seus dias sem reconhecimento e com poucos leitores. Cada autor se arrisca a ser ignorado. Vender pouco... usar as palavras apenas para atenuar as próprias mazelas. Perceber-se como artista para pouco ou nada.
 
A alegria do escritor, segundo o meu olhar, advém do latim vulgar "Alecris" - a matriz da palavra "alegre" de nosso dicionário. Nessas consoantes e vogais agrupadas, extrai-se o conceito de celebração divina da "ala". De ser alado. Como um pássaro, alçar voos - no entanto com os pés no chão. Esse estado de consciência faz de quem escreve um sonhador. Aquele que é transformado pela escrita e tem por ela a paixão. Ou seja: quase nada potencialmente o privará do grande enlevo do ato de escrever.

O incompreendido van Gogh degustava as tintas para conhecer o "sabor" das cores, demonstrando uma relativa perda de juízo a certa ...

O incompreendido van Gogh degustava as tintas para conhecer o "sabor" das cores, demonstrando uma relativa perda de juízo a certa altura de sua biografia. Embora dotado de genialidade, justificava a sua fama de insano com atitudes como tais - essas e todas as outras conhecidas pelos curiosos. Seu fim foi um suposto suicídio ou o acidente com uma arma de fogo. Já o brasileiro Candido Portinari, mesmo mais ponderado, deixou a existência de modo também trágico, ainda jovem - aos 58 anos. Mas foi devido ao puro azar: a intoxicação com o chumbo contido nas tintas com as quais lidava diariamente. 
 
Ninguém falou a eles que seria fácil. A estilística de van Gogh foi tida como insanidade quando concebida. Vendeu, em vida, apenas um quadro a um parente. Hoje toda a sua obra é posse para bilionários e museus. Em contraste com Leonardo da Vinci, contratado por grandes instituições, monarcas e militares. O que também não significava satisfação consigo. Da Vinci dizia nunca ter terminado nenhum de seus trabalhos, ele apenas os abandonava, para seguir ao próximo. Alcançar os pensamentos de alguns dos grandes nomes da história da arte é um desafio para quem só presencia as glórias.
 
Ou, ao menos, é um bom motivo para a reflexão. Assim como me fez uma entrevista que assisti no YouTube com a cartunista Laerte, criadora dos "Piratas do Tietê" e muitos outros personagens emblemáticos nos anos 80/90. Hoje, é colaboradora da Folha de São Paulo. Referiu-se sinceramente à própria produção como "medíocre". Ninguém consegue concordar com isso. Uma atuação profissional longeva, com momentos memoráveis e cartuns de extrema sofisticação - sem falhar um dia sequer - contentar apenas a nós: o público...? Não pude deixar de me afetar.
 
Artistas - como eu - têm calafrios ao se compararem a expoentes do meio ou com outros com obras fabulosas (embora pouco reconhecidos). Tanto que dentre os "monstros" nos rodeando, está a "síndrome do impostor", o "bloqueio criativo" e, por fim, a assustadora "comparação". Afligimo-nos fazendo de conta que não é conosco. Mas cedemos a atenção às dúvidas e autocríticas quando elas se manifestam sem avisar. O desabafo só acontece com os parceiros de ofício, os também artistas - dadas as dores em comum. Porque a nossa mente é muito precisa nisso: sabe exatamente onde o calo aperta para nos pisar com vigor.
 
E aposto com você: o sofrimento é compartilhado por cada ser humano que se propõe a se dedicar a um ofício artístico. E vou falar de mim. Meu último resto diurno foi a imagem de um homem bastante semelhante a um conhecido meu. Não era ele, de fato, mas tinha a aparência. Olhava-me severamente, de cima para baixo, esbravejando: "quem vai querer ver essas suas artes horríveis? Ninguém quer isso!". Remoí essa "bronca" de meu inconsciente durante todo o amargo café da manhã. O mal-estar se prolongou até o meio-dia. Precisei de um tempo para olhar para a minha prancheta sem receios.
 

A Arte, como fonte de angústias, também inspira o medo do futuro. Assim como o malfadado Candido Portinari, um colega de trabalho próximo da Laerte, o Angeli também foi acometido pela doença. Não por causa das condições de trabalho, tal Portinari, mas pelo destino. Angeli foi uma inspiração, uma força criadora fora do comum. O seu humor gráfico era refinado, debochado e hilário. Enfermidades chegam a qualquer um, só que pensar em um herói de infância tendo um desfecho desses... tão cedo (69 anos), dói muito. Olhar adiante traz temores: da arte, do fracasso, do sucesso, das fatalidades e das finanças. O cara do meu pesadelo estava se referindo a esses medos.

Ele tem uma diversidade de usos - preenche, contorna, acrescenta detalhes. O acabamento se torna refinado, o traço adquire elegância. Há o a...

Ele tem uma diversidade de usos - preenche, contorna, acrescenta detalhes. O acabamento se torna refinado, o traço adquire elegância. Há o aprimoramento ao aplicarmos o nanquim. Atravessando oceanos, ele veio do oriente de onde a escrita é "pincelada" e leva consigo atributos artísticos. Escribas e artistas o extraíam de moluscos marinhos, seres que produzem o pigmento preto como camuflagem para executar fugas diante de ameaças.

Essa tinta nobre já é reproduzida em laboratório, em larga escala, poupando um pouco a natureza de nós. Tornou-se mais um produto destinado ao ramo artístico profissional, escolar ou acadêmico. Está sob marcas registradas industriais: uma tradição milenar convertida em artigo de papelaria moderno. Nem por isso com a importância negada. O nanquim faz "magia" através de seu preto profundo pelas mãos de artistas gráficos.O desenho tradicional ainda é a forma de arte majoritária dentre as minhas escolhas. Aplicar tinta é um prazer. Um prazer possível porque requer precisão e treino. Há um leque de possibilidades - bastante amplo - na utilização desse material. Os resultados são diversos: estão nas técnicas e nos conhecimentos de como alcançar cada efeito sobre o papel. Não depende só da tinta, mas muito do artista.
 
E as ferramentas são múltiplas. Temos as canetas de ponta fina (as mais populares). E também a pena e o pincel. As recém-chegadas são as brushpens: canetas recarregáveis com pontas "pincel". Práticas, fáceis de lidar e portáveis, são queridas pela maioria dos desenhistas. Ideais para se carregar no estojo e trabalhar onde estiver: em locais públicos, ao ar livre, etc. E é no estojo onde elas permanecem quando estou em casa e diante de minha prancheta. Porque prefiro me pôr à prova e aplicar-me a finalizações mais meticulosas.

O autodesafio se torna natural após treinos insistentes. E as recompensas são maiores. O suspense é parte da utilização desse instrumento exigente. Os seus manejos só são bem-sucedidos após muita familiarização e a intimidade. Materiais tradicionais deveriam ser para todos... porém, em nossos dias, existe a ampla acessibilidade aos equipamentos de arte digital. Desse modo, o empenho com nanquim é passível de ser considerado uma insistência anacrônica. Espaço, limpeza e agilidade sacrificados podem ser questionados.
 
Dentre os que duvidam, há (ainda bem) a admiração manifesta por alguns. De todo modo, o nanquim continua em minha bancada de desenho. Está sempre presente na prancheta e ao meu alcance. Enquanto existirmos (eu e o nanquim), estaremos unidos: ferramenta e artista envolvidos, produzindo e comunicando. Entre a devoção e o desafio.