Sob um encanto da matriarca Barbarossa, Maddox recebe os milagres de voltar a andar e do dom da escrita. Pois, dentre aquela linhagem, havia um poder mágico particular. Com esse presente miraculoso, o rapaz deverá esclarecer em um livro as relações entre as duas famílias. Sem esforço ou experiência, ele apenas se tornou um narrador habilidoso. Quem dera pudesse ser assim, não? Dentro da realidade, há sim, jovens com um "poder" similar. Porém, o feitiço é resultante tão somente da formação e do estudo.
Estão eles prontos... por completo? Talvez. A juventude se destaca, só que admitindo o amadurecimento em cada linha de seus manuscritos. Ser jovem, na literatura, está vinculado ao vigor da pouca idade e à sua energia sobeja para labutar. Quando ainda na juventude, o lusitano - e ocultista - Fernando Pessoa era entregue às letras sob os seus inúmeros heterônomos, obstinadamente produzindo de forma contínua. Seus dotes como poeta e novelista atravessavam limites: foi dele a considerada melhor tradução para a língua portuguesa do poema "O Corvo" de Edgar Alan Poe.
Além de tal mérito, Pessoa também foi copywriter em uma agência de publicidade. Trabalhou no primeiro slogan em português para a Coca-Cola em 1928 - "Estranha-se e depois Entranha-se". As habilidades distintas e conhecimentos específicos parecem ser anexas a muitos que viveram a literatura. Isaac Asimov, prolífico romancista da Ficção Científica, tinha inclinações como cientista antes do interesse pela escrita. Certamente, a mente dele tratou de unir ambos.
Qualquer um diante de sua obra maior, a "Fundação", se perguntará inúmeras vezes como fora pensada de maneira tão ousada para a sua ocasião (1950). Nela há uma complexidade de fatos e especulações tecnológicas muito antes do cinema nos entregar visualmente tais conceitos. A obra é visionária, rica em eloquentes detalhes técnicos - imaginativos - e previsões, mesmo sendo Asimov despreocupado em catalogar datas, eventos e outras circunstâncias.
Em 50 anos, Asimov relatou a epopeia da humanidade no espaço ao longo de 25 mil anos. Clive Barker nos trouxe clássicos do terror aos livros e ao cinema. Em Galilee, uma iluminação física/intelectual sob as intrigas entre duas poderosas famílias. Fernando Pessoa era um homem múltiplo da escrita, também um redator publicitário criativo e tradutor. Constou em sua produção vozes individuais para cada uma de suas faces literárias.
Talentos bastante distintos com o texto, mas compartilhando da mesma motriz: a inventividade. Trabalhar com a escrita é fazer das ideias um "Big Bang" junto ao domínio da língua como ferramenta. Esforços intelectuais hoje só dignos de êxito se propagandeados e "hypados" pelas mídias. Como o Maddox Barbarossa em Galilee, grandes talentos seguem os seus dias sem reconhecimento e com poucos leitores. Cada autor se arrisca a ser ignorado. Vender pouco... usar as palavras apenas para atenuar as próprias mazelas. Perceber-se como artista para pouco ou nada.
A alegria do escritor, segundo o meu olhar, advém do latim vulgar "Alecris" - a matriz da palavra "alegre" de nosso dicionário. Nessas consoantes e vogais agrupadas, extrai-se o conceito de celebração divina da "ala". De ser alado. Como um pássaro, alçar voos - no entanto com os pés no chão. Esse estado de consciência faz de quem escreve um sonhador. Aquele que é transformado pela escrita e tem por ela a paixão. Ou seja: quase nada potencialmente o privará do grande enlevo do ato de escrever.








