Caso eu fosse visitado por uma fada me trazendo uma proposta mágica, eu a ouviria. Digamos ser o milagre oferecido, o de eu ter o traço de qualquer artista de meus gostos, adquirido sem estudo ou prática. Eu diria a ela para ir visitar outra pessoa. Estou satisfeito com o meu desenho. E isso não é falta de modéstia: encontrei um jeito de trabalhar, sendo ele prazeroso e que me traz realização. E eu não o abandonaria por nada.
Persisto em meus métodos, pois atravessei doze anos desenhando para os alcançar. E nesse caminho, há variações no progresso - muitas vezes bem parecidas com o retrocesso nas habilidades. As escolhas foram aceitas e rejeitadas, deixei pedaços de mim nesse trajeto. Foi frustrante e empolgante na mesma medida. Tanto tive o desejo de atirar tudo para o alto, quanto a ansiedade de me livrar das obrigações formais para correr à prancheta todos os dias.
E assim, foram-se cinco, dez, doze anos para descobrir como executar e aprimorar o traço. A busca por referências e informações para acelerar o aprendizado jamais cessou. Também houve os investimentos nos cursos de desenho. Mantive a dedicação de quem ignorou o medo. O medo esse - o de falhar - que ocorreu sempre de mãos unidas ao prazer de me distanciar do mundo e dos problemas. Acredito ser justamente o processo o fator determinante para motivar um artista.
Quando estou aqui, em Oniria, entregue às minhas produções, nada me atinge. Os momentos de trabalho transformam cada segundo em algo que fada madrinha alguma é capaz de melhorar. Não digo de um jeito afetado de quem se considera um "artista". Sou humilde e muito apto a reconhecer as limitações em tudo o que me proponho a fazer. Mas sigo. Porque não estou preocupado. Quem dita o meu ritmo é a diligência à arte - o restante, abandono.
Hoje, diferente de alguns momentos do passado, a angústia de estar diante de uma folha em branco quase se escondeu de mim. Embora as referidas limitações, quando pego o papel, sei que posso imaginar e transferir o pensamento para lá. Isso até me prega algumas peças. Tenho muitas pareidolias diárias e constantes. Surgem desenhos em sombras, objetos e manchas. Meu olhar se detém em um canto da mesa e projeto uma mulher em miniatura - e ela praticamente se materializa diante da visão.
Não sei se é uma habilidade ou uma "fertilização" deliberada da imaginação. Ignorando se é um ou outro, penso nisso como consequência do trabalho com as imagens - talvez adquirida naturalmente. Levando-me a pensar se há a preocupação em desenvolver práticas como essas pelos iniciantes da atualidade. Tenho visto, nas redes sociais, excelentes demonstrações de talentos. É bonito e atrativo. Porém, observo sempre que, ou os vídeos são picotados ou acelerados. Isso representa um perigo. Fica parecendo que o processo inexistiu.
Para um neófito, traz o equívoco da rapidez e da facilidade ao executar uma obra - fica perfeito e linear. Os resultados surgem em menos de um minuto. A prática real revela o oposto: as tentativas e erros, cada passo sendo estudado, ajustado e toda a aplicação de esforços omitida pelas edições. O desenhista permanece na companhia de uma folha ao passar de horas, dias. Cada linha de nanquim é traçada lentamente, com a respiração presa, para ter precisão e não botar tudo a perder. Recuso a oferta da fada, pois construí o que tenho por mim e aprecio o meu processo.
Persisto em meus métodos, pois atravessei doze anos desenhando para os alcançar. E nesse caminho, há variações no progresso - muitas vezes bem parecidas com o retrocesso nas habilidades. As escolhas foram aceitas e rejeitadas, deixei pedaços de mim nesse trajeto. Foi frustrante e empolgante na mesma medida. Tanto tive o desejo de atirar tudo para o alto, quanto a ansiedade de me livrar das obrigações formais para correr à prancheta todos os dias.
E assim, foram-se cinco, dez, doze anos para descobrir como executar e aprimorar o traço. A busca por referências e informações para acelerar o aprendizado jamais cessou. Também houve os investimentos nos cursos de desenho. Mantive a dedicação de quem ignorou o medo. O medo esse - o de falhar - que ocorreu sempre de mãos unidas ao prazer de me distanciar do mundo e dos problemas. Acredito ser justamente o processo o fator determinante para motivar um artista.
Quando estou aqui, em Oniria, entregue às minhas produções, nada me atinge. Os momentos de trabalho transformam cada segundo em algo que fada madrinha alguma é capaz de melhorar. Não digo de um jeito afetado de quem se considera um "artista". Sou humilde e muito apto a reconhecer as limitações em tudo o que me proponho a fazer. Mas sigo. Porque não estou preocupado. Quem dita o meu ritmo é a diligência à arte - o restante, abandono.
Hoje, diferente de alguns momentos do passado, a angústia de estar diante de uma folha em branco quase se escondeu de mim. Embora as referidas limitações, quando pego o papel, sei que posso imaginar e transferir o pensamento para lá. Isso até me prega algumas peças. Tenho muitas pareidolias diárias e constantes. Surgem desenhos em sombras, objetos e manchas. Meu olhar se detém em um canto da mesa e projeto uma mulher em miniatura - e ela praticamente se materializa diante da visão.
Não sei se é uma habilidade ou uma "fertilização" deliberada da imaginação. Ignorando se é um ou outro, penso nisso como consequência do trabalho com as imagens - talvez adquirida naturalmente. Levando-me a pensar se há a preocupação em desenvolver práticas como essas pelos iniciantes da atualidade. Tenho visto, nas redes sociais, excelentes demonstrações de talentos. É bonito e atrativo. Porém, observo sempre que, ou os vídeos são picotados ou acelerados. Isso representa um perigo. Fica parecendo que o processo inexistiu.
Para um neófito, traz o equívoco da rapidez e da facilidade ao executar uma obra - fica perfeito e linear. Os resultados surgem em menos de um minuto. A prática real revela o oposto: as tentativas e erros, cada passo sendo estudado, ajustado e toda a aplicação de esforços omitida pelas edições. O desenhista permanece na companhia de uma folha ao passar de horas, dias. Cada linha de nanquim é traçada lentamente, com a respiração presa, para ter precisão e não botar tudo a perder. Recuso a oferta da fada, pois construí o que tenho por mim e aprecio o meu processo.








