Antes mesmo da alfabetização, somos apresentados ao material mais elementar na jornada de um Artista: o lápis. Semelhante a uma bola, a estrutura e a interação com ele já nos diz ao que se destina. Traçamos e tracejamos, fazemos uma confusão de linhas, do mesmo jeito com que chutamos uma bola para qualquer lado. Se muitos se encantam com a bola, em um número bem menor há os seguidores do caminho do lápis - e estes são os dos nossos.
Nas possibilidades infindáveis do seu manejar, revelam-se mil e uma descobertas. É quando percebemos ser o lápis a extensão da mente e do coração. Imagens são transferidas para o papel e a imaginação se prolifera em cada parte em branco do mundo. Guardamos nossas folhas, orgulhosos, sob a avaliação generosa dos professores de Artes e de nossos pais e mães. Crescemos portando o lápis para onde vamos, guardando-o dentre nossos pertences. E ele representa o nosso refúgio na infância, na juventude e, quando a vida nos encaminha e permite, no viver adulto.
Ainda no colegial, apeguei-me muito à lapiseira (um lápis mecânico) e com ela rabiscava os cantos de livros didáticos e cadernos. Fui recriminado, severamente, por professores mais austeros com essa prática, não me causando qualquer espécie de arrependimento. Nós, do caminho do lápis, temos algo de transgressor. Os Desenhos ornam desde monumentos, paredes a móveis e utensílios domésticos... do mesmo modo que os profanam. Surge, dessa maneira, o valor da beleza ou o desafio à civilidade. Cada riscado acompanha a desatenção ao sagrado quadro negro e a ausência dos professores e autoridades similares.O cotidiano é observado mais profundamente aos que persistem e resistem no Desenho. Quando se aprende o caminho e como o seguir, encontra-se a habilidade e, assim, as oportunidades de sermos livres. Somos propelidos por saber sempre mais e a admirar Artistas inspiradores. Logo, o caminho do lápis transcende, transforma-se no caminho das tintas, das telas, do grafite e assim por diante. Sobretudo, quem está nele, está por um tipo de afeto de difícil definição. Um sentimento aberto a interpretações e a incompreensões.
Embora induza ao interesse - às vezes admiração - por parte dos leigos, o desenhar transmite impressões oblíquas sobre nós. Dentre elogios e pareceres triviais, somos tratados de forma diferente, como se algo sagrado e pueril nos envolvesse. Aparentemente, estamos eternamente colorindo e contornando em busca da aprovação dos que nos cercam. Mas jamais recebemos indiferença ao revelar nosso (desculpe a palavra) dom a alguém que não saiba fazer um "boneco de palito". Vamos convir: não há qualquer erro nesses aspectos banais na vida de um Desenhista.
O valor de se usar o lápis está na expressão, no sabor de registrar o nosso imaginário e os nossos pensamentos. Povoamos dos livros infantis às páginas dos jornais, fazemos críticas, sátiras, homenagens. Pouco a pouco, e silentes, entregamos ao mundo muitos motivos para necessitar de Artistas empunhando o lápis. Quem subestima o Desenho ignora o poder nele contido e por isso se arrisca. A habilidade de dar formas às ideias age no subterrâneo e nos subtextos pictóricos, os quais combatem a tudo e a todos nas trincheiras opostas. O lápis também perfura e pode ferir - de forma subjetiva - incisivamente, até mais que a adaga.