abril 2026 - Homem Quieto

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Comunicando-me com o mundo de minha workstation Oniria.

Na capa de estreia da revista The New Yorker, lançada há (mais ou menos) cem anos, há a ilustração cartunesca retratando um dândi. Estava al...

Na capa de estreia da revista The New Yorker, lançada há (mais ou menos) cem anos, há a ilustração cartunesca retratando um dândi. Estava ali uma caricatura clichê deslocada de sua essência. A figura afetada, almofadinha, examinava uma borboleta através de um monóculo. A sua aparência é uma fachada, uma estética ilusória de quem só quer os holofotes para si. Naquele caso, a imagem do dândi fora convertida na de um poseur - a superficialidade de uma encenação: imagens, personalidades e raciocínios nada genuínos. Em contraste evidente ao mais conhecido dândi da literatura do século XIX: o irlandês Oscar Wilde.
 
Napoleon Sarony, renomado fotógrafo e suas lentes, eternizou o semblante de Oscar Wilde. Na clássica foto do dândi, vemos-no com a juventude em flor e a mente aguçada desafiando a moral daquele momento. Essa é a melhor imagem para recordarmos dele e de sua idiossincrasia tão peculiar. Como escritor, sabia chocar. Um habilidoso aforista, comumente reconhecido por seus paradoxos (frases unindo divergências e fazendo todo sentido). Tais pérolas, por vezes, revoltavam opiniões, pois eram provocativas e, ao mesmo tempo, concebidas com genialidade notável.
Havia um esboço por trás dessa camada. Mas vou deixar só o mais refinado aqui.

Há muitas das publicações de Oscar Wilde - meu escritor de cabeceira - nas estantes de Oniria (o ambiente onde escrevo e desenho). Meu respeito à obra de Wilde é pleno e a sua personalidade me é objeto de culto. Sentia-me devendo em demonstrar gratidão aos pensamentos surgidos no riscar de meus contatos com a literatura. Para tanto, trouxe o post de hoje: a minha sincera reverência a Wilde em um desenho digital. Coloquei nele muito sentimento e o comprometimento de o executar bem - podemos estar seguros disso. O desenho veio com muita dedicação aos detalhes e capricho.

A arte final foi mais minuciosa do que parece.
Nele, estamos diante do túmulo silente de Wilde sendo visitado por Etrom e Cláudia, de minha HQ autoral, Vivi Morbi, publicado no Fliptru. Fazer um retrato inspirado na foto tirada pelo Sarony pecaria pela obviedade e criação mínima. Preferi agraciar Wilde não pelo auge físico, mas sim ao seu espírito e as lembranças trazidas por cada palavra que dele li. O túmulo é uma homenagem memorial.
   
Pretendi demonstrar o carinho pela vida e obra de um gênio único, de grandeza imensurável. Vida e obra... Uma vida cujos momentos finais demonstraram o quão injusta pode ser nossa espécie. A desprezível arrogância que ronda a estupidez humana. Já a obra, uma marca nos brindando eternamente. Um presente de valor incalculável a todos com o privilégio de beber dessa fonte.
Resultado final com detalhamento.
A arte de Wilde é como ele a enxergava. Para ele, a arte é sempre inútil. Ela não tem que servir para nada, apenas despertar emoções e reflexões interiores. Arrebatar temporariamente o sentimento humano e se tornar um estado de espírito. Fugir ao "útil" e ser uma experiência íntima. Elevar, transcender a razão. Ele fazia isso muito bem e sabia disso. 

A companheira de Vivi Morbi, nesta cena, vem da mente do sueco  Stieg Larsson , romancista criador da trilogia Millenium. Ele já não compart...

A companheira de Vivi Morbi, nesta cena, vem da mente do sueco Stieg Larsson, romancista criador da trilogia Millenium. Ele já não compartilha da existência conosco, porém, a sua obra permaneceu e perdurará. Stieg criou Lisbeth Salander, uma desajustada diagnosticada como incapaz. Embora isso, ela é uma junkie de informática, hacker reconhecida no submundo da computação e uma investigadora extraordinária. Desde criança, chocou-se com a incompreensão das pessoas com as quais foi obrigada a conviver - como educadores, um psiquiatra e, depois de adulta, um tutor pervertido.
 
A trilogia Millenium obteve boa avaliação do público e da crítica, tornando-se um Bestseller mundial. Recebeu adaptações cinematográficas tanto na própria Suécia como em Hollywood. Para mim, ambas foram satisfatórias - e seguindo a opinião mais clichê: o livro é melhor. Lisbeth e Vivi têm dois elementos em comum: ambas são fictícias e têm estilos de vida alternativos. Porém, ao passo que Lisbeth é explosiva e tem dificuldades para administrar afetos, Vivi é ponderada e amorosa com seus familiares.
Várias tentativas no momento do esboço. Estava difícil encontrar uma decisão final.
Os Morbis estão sob uma maldição: durante gerações, é escolhida uma nascida menina para servir às vontades de entidades malignas e, assim evitar a eliminação da família. Nesse pesado fardo, resta a fé em um dia atingir a liberdade - um sonho distante, na verdade. A fé de Vivi é agir acreditando na possibilidade do êxito. A esperança permanece sendo cuidadosamente trabalhada para não se tornar uma crença. Na crença, Vivi estaria cega, pois teria a certeza da realização. Algo desligado da realidade. A luta é constante e os propósitos são calculadamente perseguidos.
A folha aguentou as aguadas. Méritos do sketchbook.
Vivi e Lisbeth vestem-se excentricamente. Desafiam os "normies" descendo escadarias sem desviar o olhar do horizonte. São classudas e excelentes em se permitir diferenciar do mundo "careta". Afinal, é assim o modo de agir de todos os integrantes de subculturas em torno do mundo. Os gostos e atitudes consideradas "estranhas" aos cidadãos ordinários são justamente o diferencial de suas personalidades. Compartilho desses aspectos das duas personagens. Sou um homem com uma certa idade, porém, não pretendo deixar pelo caminho os traços da minha formação de caráter.
Essa duplinha alegrou minha tarde de sábado.
Mas voltando à Lisbeth... Stieg Larsson toca em um tema bastante delicado. Caminho em ovos com isso porque também me incluo no assunto. O tema é o trauma. A personagem lida com graves feridas em sua história. Por ser calada e introspectiva - e com a dificuldade de se abrir emocionalmente - acabou sendo maculada por este mal seguidas vezes. As pessoas nos dizem para abandonarmos o passado e seguir em frente, superar, etc. Porém, quando se diz para "virar a página", estamos ignorando o fato de que alguns parágrafos de nossas vidas vão nos machucar capítulo após capítulo, ou até a palavra "FIM".