2026 - Homem Quieto

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A cena do desdobramento final de Galilee (Clive Barker - Bertrand Brasil [1998]) me parece ser o sentimento íntimo do autor pelo seu ofício....

A cena do desdobramento final de Galilee (Clive Barker - Bertrand Brasil [1998]) me parece ser o sentimento íntimo do autor pelo seu ofício. Nela, a pessoa lírica do livro (encarregada de escrever aquela mesma história) chega a um destino solitário e destituído de júbilo. No princípio do romance, Maddox Barbarossa é paraplégico e um integrante postiço da etérea família Barbarossa. Conhecemos, então, o conflito deles com a família Geary, descrita como mais glamourosa que os Kennedy e mais rica que os Rockefeller.

Sob um encanto da matriarca Barbarossa, Maddox recebe os milagres de voltar a andar e do dom da escrita. Pois, dentre aquela linhagem, havia um poder mágico particular. Com esse presente miraculoso, o rapaz deverá esclarecer em um livro as relações entre as duas famílias. Sem esforço ou experiência, ele apenas se tornou um narrador habilidoso. Quem dera pudesse ser assim, não? Dentro da realidade, há sim, jovens com um "poder" similar. Porém, o feitiço é resultante tão somente da formação e do estudo.
 
Estão eles prontos... por completo? Talvez. A juventude se destaca, só que admitindo o amadurecimento em cada linha de seus manuscritos. Ser jovem, na literatura, está vinculado ao vigor da pouca idade e à sua energia sobeja para labutar. Quando ainda na juventude, o lusitano - e ocultista - Fernando Pessoa era entregue às letras sob os seus inúmeros heterônomos, obstinadamente produzindo de forma contínua. Seus dotes como poeta e novelista atravessavam limites: foi dele a considerada melhor tradução para a língua portuguesa do poema "O Corvo" de Edgar Alan Poe.
 
Além de tal mérito, Pessoa também foi copywriter em uma agência de publicidade. Trabalhou no primeiro slogan em português para a Coca-Cola em 1928 - "Estranha-se e depois Entranha-se". As habilidades distintas e conhecimentos específicos parecem ser anexas a muitos que viveram a literatura. Isaac Asimov, prolífico romancista da Ficção Científica, tinha inclinações como cientista antes do interesse pela escrita. Certamente, a mente dele tratou de unir ambos.
  
Qualquer um diante de sua obra maior, a "Fundação", se perguntará inúmeras vezes como fora pensada de maneira tão ousada para a sua ocasião (1950). Nela há uma complexidade de fatos e especulações tecnológicas muito antes do cinema nos entregar visualmente tais conceitos. A obra é visionária, rica em eloquentes detalhes técnicos - imaginativos - e previsões, mesmo sendo Asimov despreocupado em catalogar datas, eventos e outras circunstâncias.
 
Em 50 anos, Asimov relatou a epopeia da humanidade no espaço ao longo de 25 mil anos. Clive Barker nos trouxe clássicos do terror aos livros e ao cinema. Em Galilee, uma iluminação física/intelectual sob as intrigas entre duas poderosas famílias. Fernando Pessoa era um homem múltiplo da escrita, também um redator publicitário criativo e tradutor. Constou em sua produção vozes individuais para cada uma de suas faces literárias.
 
Talentos bastante distintos com o texto, mas compartilhando da mesma motriz: a inventividade. Trabalhar com a escrita é fazer das ideias um "Big Bang" junto ao domínio da língua como ferramenta. Esforços intelectuais hoje só dignos de êxito se propagandeados e "hypados" pelas mídias. Como o Maddox Barbarossa em Galilee, grandes talentos seguem os seus dias sem reconhecimento e com poucos leitores. Cada autor se arrisca a ser ignorado. Vender pouco... usar as palavras apenas para atenuar as próprias mazelas. Perceber-se como artista para pouco ou nada.
 
A alegria do escritor, segundo o meu olhar, advém do latim vulgar "Alecris" - a matriz da palavra "alegre" de nosso dicionário. Nessas consoantes e vogais agrupadas, extrai-se o conceito de celebração divina da "ala". De ser alado. Como um pássaro, alçar voos - no entanto com os pés no chão. Esse estado de consciência faz de quem escreve um sonhador. Aquele que é transformado pela escrita e tem por ela a paixão. Ou seja: quase nada potencialmente o privará do grande enlevo do ato de escrever.

O incompreendido van Gogh degustava as tintas para conhecer o "sabor" das cores, demonstrando uma relativa perda de juízo a certa ...

O incompreendido van Gogh degustava as tintas para conhecer o "sabor" das cores, demonstrando uma relativa perda de juízo a certa altura de sua biografia. Embora dotado de genialidade, justificava a sua fama de insano com atitudes como tais - essas e todas as outras conhecidas pelos curiosos. Seu fim foi um suposto suicídio ou o acidente com uma arma de fogo. Já o brasileiro Candido Portinari, mesmo mais ponderado, deixou a existência de modo também trágico, ainda jovem - aos 58 anos. Mas foi devido ao puro azar: a intoxicação com o chumbo contido nas tintas com as quais lidava diariamente. 
 
Ninguém falou a eles que seria fácil. A estilística de van Gogh foi tida como insanidade quando concebida. Vendeu, em vida, apenas um quadro a um parente. Hoje toda a sua obra é posse para bilionários e museus. Em contraste com Leonardo da Vinci, contratado por grandes instituições, monarcas e militares. O que também não significava satisfação consigo. Da Vinci dizia nunca ter terminado nenhum de seus trabalhos, ele apenas os abandonava, para seguir ao próximo. Alcançar os pensamentos de alguns dos grandes nomes da história da arte é um desafio para quem só presencia as glórias.
 
Ou, ao menos, é um bom motivo para a reflexão. Assim como me fez uma entrevista que assisti no YouTube com a cartunista Laerte, criadora dos "Piratas do Tietê" e muitos outros personagens emblemáticos nos anos 80/90. Hoje, é colaboradora da Folha de São Paulo. Referiu-se sinceramente à própria produção como "medíocre". Ninguém consegue concordar com isso. Uma atuação profissional longeva, com momentos memoráveis e cartuns de extrema sofisticação - sem falhar um dia sequer - contentar apenas a nós: o público...? Não pude deixar de me afetar.
 
Artistas - como eu - têm calafrios ao se compararem a expoentes do meio ou com outros com obras fabulosas (embora pouco reconhecidos). Tanto que dentre os "monstros" nos rodeando, está a "síndrome do impostor", o "bloqueio criativo" e, por fim, a assustadora "comparação". Afligimo-nos fazendo de conta que não é conosco. Mas cedemos a atenção às dúvidas e autocríticas quando elas se manifestam sem avisar. O desabafo só acontece com os parceiros de ofício, os também artistas - dadas as dores em comum. Porque a nossa mente é muito precisa nisso: sabe exatamente onde o calo aperta para nos pisar com vigor.
 
E aposto com você: o sofrimento é compartilhado por cada ser humano que se propõe a se dedicar a um ofício artístico. E vou falar de mim. Meu último resto diurno foi a imagem de um homem bastante semelhante a um conhecido meu. Não era ele, de fato, mas tinha a aparência. Olhava-me severamente, de cima para baixo, esbravejando: "quem vai querer ver essas suas artes horríveis? Ninguém quer isso!". Remoí essa "bronca" de meu inconsciente durante todo o amargo café da manhã. O mal-estar se prolongou até o meio-dia. Precisei de um tempo para olhar para a minha prancheta sem receios.
 

A Arte, como fonte de angústias, também inspira o medo do futuro. Assim como o malfadado Candido Portinari, um colega de trabalho próximo da Laerte, o Angeli também foi acometido pela doença. Não por causa das condições de trabalho, tal Portinari, mas pelo destino. Angeli foi uma inspiração, uma força criadora fora do comum. O seu humor gráfico era refinado, debochado e hilário. Enfermidades chegam a qualquer um, só que pensar em um herói de infância tendo um desfecho desses... tão cedo (69 anos), dói muito. Olhar adiante traz temores: da arte, do fracasso, do sucesso, das fatalidades e das finanças. O cara do meu pesadelo estava se referindo a esses medos.

Ele tem uma diversidade de usos - preenche, contorna, acrescenta detalhes. O acabamento se torna refinado, o traço adquire elegância. Há o a...

Ele tem uma diversidade de usos - preenche, contorna, acrescenta detalhes. O acabamento se torna refinado, o traço adquire elegância. Há o aprimoramento ao aplicarmos o nanquim. Atravessando oceanos, ele veio do oriente de onde a escrita é "pincelada" e leva consigo atributos artísticos. Escribas e artistas o extraíam de moluscos marinhos, seres que produzem o pigmento preto como camuflagem para executar fugas diante de ameaças.

Essa tinta nobre já é reproduzida em laboratório, em larga escala, poupando um pouco a natureza de nós. Tornou-se mais um produto destinado ao ramo artístico profissional, escolar ou acadêmico. Está sob marcas registradas industriais: uma tradição milenar convertida em artigo de papelaria moderno. Nem por isso com a importância negada. O nanquim faz "magia" através de seu preto profundo pelas mãos de artistas gráficos.O desenho tradicional ainda é a forma de arte majoritária dentre as minhas escolhas. Aplicar tinta é um prazer. Um prazer possível porque requer precisão e treino. Há um leque de possibilidades - bastante amplo - na utilização desse material. Os resultados são diversos: estão nas técnicas e nos conhecimentos de como alcançar cada efeito sobre o papel. Não depende só da tinta, mas muito do artista.
 
E as ferramentas são múltiplas. Temos as canetas de ponta fina (as mais populares). E também a pena e o pincel. As recém-chegadas são as brushpens: canetas recarregáveis com pontas "pincel". Práticas, fáceis de lidar e portáveis, são queridas pela maioria dos desenhistas. Ideais para se carregar no estojo e trabalhar onde estiver: em locais públicos, ao ar livre, etc. E é no estojo onde elas permanecem quando estou em casa e diante de minha prancheta. Porque prefiro me pôr à prova e aplicar-me a finalizações mais meticulosas.

O autodesafio se torna natural após treinos insistentes. E as recompensas são maiores. O suspense é parte da utilização desse instrumento exigente. Os seus manejos só são bem-sucedidos após muita familiarização e a intimidade. Materiais tradicionais deveriam ser para todos... porém, em nossos dias, existe a ampla acessibilidade aos equipamentos de arte digital. Desse modo, o empenho com nanquim é passível de ser considerado uma insistência anacrônica. Espaço, limpeza e agilidade sacrificados podem ser questionados.
 
Dentre os que duvidam, há (ainda bem) a admiração manifesta por alguns. De todo modo, o nanquim continua em minha bancada de desenho. Está sempre presente na prancheta e ao meu alcance. Enquanto existirmos (eu e o nanquim), estaremos unidos: ferramenta e artista envolvidos, produzindo e comunicando. Entre a devoção e o desafio.

Acrescentei um novo hábito ao meu cotidiano. Dentre os últimos meses do ano passado e a semana presente, carreguei na mochila alguns sketchb...

Acrescentei um novo hábito ao meu cotidiano. Dentre os últimos meses do ano passado e a semana presente, carreguei na mochila alguns sketchbooks de 14x21,5cm. Nada de folhas especiais e demais luxos, mas sim papel simples e boa encadernação. O hábito ao qual me refiro foi o uso quase diário dos cadernos. Mantive a constância nos dias úteis das semanas. Aos fins de semana, a regra são os projetos em quadrinhos. Reservo exclusivamente aos sábados o tempo mais prolongado em cima dos sketchbooks principais, onde as artes são melhor trabalhadas.
 
O realce sobre este experimento está no valor da persistência e da atenção. É ter de se concentrar todos os dias sobre o papel deixando as ideias fluírem, sejam quais forem os resultados. O uso do sketchbook menor também recebeu delimitações de tempo rigorosas: 15 minutos no meio da manhã e 15 minutos no meio da tarde. Quando iniciei, tentei a pausa após o almoço, mas preferi voltar aos intervalos citados. Complemento que, em alguns momentos, não me contentei com as execuções. Apesar disso, prossegui.
  
Dentro destas restrições, obtive mais fluência e agilidade, as ideias surgiam a todo instante. Observando por um certo prisma, a minha criatividade aguçou - nunca estive tão inspirado. O hábito era quase ritualístico: abrir o estojo, armar a pequena prancheta (um suporte para laptop de improviso) e ir para uma folha em branco. Desenhar e desenhar, explorar possibilidades. Um exercício o qual considero comparável ao ato de meditar. Através dele me permiti aplicar os aprendizados retidos ao longo dos anos.
 
A teoria, por si só, pode ser estéril caso não esteja aliada à prática. Fui bastante aplicado no desenho a partir da segunda metade da década passada. Só que eu o fazia - como já dito - somente aos sábados à tarde. De fato, com alguma regularidade. Mas obtive progressos satisfatórios, após os experimentos contínuos. Foram refinadas, no dia a dia, inúmeras peculiaridades ao meu traço - como as figuras humanas, os fetiches, as faces "vazias" femininas. Talvez tais avanços fossem adiados sem tal atitude. Essa mudança de ritmo incorporou aprimoramentos bastante valiosos às minhas produções principais.
 
Fechei o terceiro sketchbook menor, pela última vez, nessa semana. Olhei através da janela e deixei a mente um pouco "desocupada" - tanto nos 15 minutos da manhã, quanto nos 15 minutos da tarde. Optei por um curto período de reflexão - sem desenhar. Em breve retornarei, no entanto preciso de um "tempo". Não acho positivo tornar uma prática agradável, embora regular, em uma obrigação. Não há por que lhe retirar o brilho. Tenho fome de fazer arte e objetivos claros para mim. Porém, é necessário respirar para prosseguir.

Setembro de 1995. Frequentava a banca de revistas do calçadão próxima ao fliperama. Queria HQs, ou publicações informativas sobre terror. Po...



Setembro de 1995. Frequentava a banca de revistas do calçadão próxima ao fliperama. Queria HQs, ou publicações informativas sobre terror. Porém, minha atenção se voltou à gôndola das animações. Estava diante de uma Japan Fury. No volume, imagens de animes os quais jamais ouvira falar. Os Cavaleiros do Zodíaco - a bola da vez - recebiam destaque para chamar a atenção do público. Conhecia o "Cavaleiros" do ano anterior, quando o tema de abertura me fazia trocar rapidamente de canal para o torpor da MTV. Preferia os videoclipes, VJ's... o Beaves e Butt-head. 
O lápis foi tranquilo. Bem rápido.

Havia me distanciado definitivamente dos amigos de infância e da adolescência. Colecionava discos de Metal Extremo, Heavy Metal... estava frustrado com as aulas de guitarra. Precisava de novidades. Portanto, levei a Japan Fury na sacola juntamente a uma graphic novel do Wolverine. A linha editorial da Japan Fury era diferente, havia um tempero e uma comunicação bem peculiares. A curiosidade só crescia. Quem eram aqueles personagens de olhos imensos? Como podiam ter histórias tão absurdas? Brevemente, meu interesse fora capturado. O que também se tornou um dos motivos de eu voltar a desenhar.

 Depois veio a revista Herói e a quase homônima Heróis do Futuro. Sob a influência de tais leituras, passei a prestar mais atenção nas animações japonesas nas locadoras. Arrumei dois empregos (um deles com expediente nos fins de semana) e estudava à noite. O pouco tempo não rivalizava com a minha disposição juvenil. Eu desenhava e lia bastante e ainda trocava correspondências com outros fãs de animes e mangás. Era como eu aproveitava o tempo sem interações sociais - as quais não sentia a mínima falta.

Coloquei o sketchbook para rodar.
Aos sábados à tarde - quando de folga -, garimpava nas locadoras. Animes de todos os tipos surgiam dessas incursões. Já os mangás eram mais difíceis de se encontrar - os mais acessíveis e traduzidos, só os pornográficos (Hentais). U Jin e companhia povoavam as minhas gavetas. Alguns deles eram bem "errados", por assim dizer. No entanto, estavam esteticamente dentro de meus gostos. Quanto às buscas nas locadoras... executei longos trajetos através de todos os bairros com dedicação. Tendo dois videocassetes, assistia às VHS's e as copiava durante a noite para ver novamente em outros momentos. Vou listar aqui alguns dos achados mais significativos:

• Akira • Lady Oscar • A Espada de Kamui • Leda • Loke - O Superman das Galáxias • Lensmen • Capitão Harlock • Galaxy Express 999 • Lupin • Gato de Botas • Gamba • Robotech • Don Drácula • Gigi e a Fonte da Juventude • Baldios • Poderes Eróticos • Sonhos Molhados • Pop Shaser • Jovens Guerreiros • Terror em Love City, dentre outros.

No final, minha homenagem ao "Leda" completa.

Dessa lista, um dos mais legais era o OAV (Original Anime Video) "Leda". A boa animação e a historinha simples me fizeram assistir a este anime incontáveis vezes. O clima era de melancolia em uma cisão com a ação e a aventura. Eu, ainda imaturo, afeiçoei-me desmioladamente pela Yohko Asagiri, a protagonista. Mesmo com tantos sentimentos envolvidos, depois de uns dois ou três anos, deixei-o de lado. Vieram os fansubs (legendagens de animes feitas por fãs) e as coisas mudaram. Depois, com as novas tecnologias, os videocassetes não deixaram vestígios. Revisito hoje as imagens de Leda na internet e revivo antigas sensações. Tantas alegrias e angústias para recordar... Trago essa mistura ao post de hoje, onde meus personagens homenageiam a animação.
 
Lembrar de Leda no meu traço resgata os tempos do brilho no olhar com cada nova descoberta nos animes/mangás. E, também, de um ocorrido interessante: quando minha prima - prestes a se formar no colegial - me convidou para participar de uma feira de talentos do colégio onde estudava. Ela me deu um roteiro e pediu para quadrinizar. Levamos dois meses no projeto. Fizemos xerox das páginas e montamos um mural. Foi a primeira exposição de meus desenhos a mais pessoas do que apenas meu núcleo familiar. Acompanhei minha prima durante os dois dias do evento. Dentre críticas e elogios, sobrevivemos bem e, se não estou enganado, ela teve uma nota muito boa. São coisas como essas o motivo pelo qual continuo me dedicando ao desenho e à escrita. E tudo começou com um... exemplarzinho da Japan Fury.

Na capa de estreia da revista The New Yorker, lançada há (mais ou menos) cem anos, há a ilustração cartunesca retratando um dândi. Estava al...

Na capa de estreia da revista The New Yorker, lançada há (mais ou menos) cem anos, há a ilustração cartunesca retratando um dândi. Estava ali uma caricatura clichê deslocada de sua essência. A figura afetada, almofadinha, examinava uma borboleta através de um monóculo. A sua aparência é uma fachada, uma estética ilusória de quem só quer os holofotes para si. Naquele caso, a imagem do dândi fora convertida na de um poseur - a superficialidade de uma encenação: imagens, personalidades e raciocínios nada genuínos. Em contraste evidente ao mais conhecido dândi da literatura do século XIX: o irlandês Oscar Wilde.
 
Napoleon Sarony, renomado fotógrafo e suas lentes, eternizou o semblante de Oscar Wilde. Na clássica foto do dândi, vemos-no com a juventude em flor e a mente aguçada desafiando a moral daquele momento. Essa é a melhor imagem para recordarmos dele e de sua idiossincrasia tão peculiar. Como escritor, sabia chocar. Um habilidoso aforista, comumente reconhecido por seus paradoxos (frases unindo divergências e fazendo todo sentido). Tais pérolas, por vezes, revoltavam opiniões, pois eram provocativas e, ao mesmo tempo, concebidas com genialidade notável.
Havia um esboço por trás dessa camada. Mas vou deixar só o mais refinado aqui.

Há muitas das publicações de Oscar Wilde - meu escritor de cabeceira - nas estantes de Oniria (o ambiente onde escrevo e desenho). Meu respeito à obra de Wilde é pleno e a sua personalidade me é objeto de culto. Sentia-me devendo em demonstrar gratidão aos pensamentos surgidos no riscar de meus contatos com a literatura. Para tanto, trouxe o post de hoje: a minha sincera reverência a Wilde em um desenho digital. Coloquei nele muito sentimento e o comprometimento de o executar bem - podemos estar seguros disso. O desenho veio com muita dedicação aos detalhes e capricho.

A arte final foi mais minuciosa do que parece.
Nele, estamos diante do túmulo silente de Wilde sendo visitado por Etrom e Cláudia, de minha HQ autoral, Vivi Morbi, publicado no Fliptru. Fazer um retrato inspirado na foto tirada pelo Sarony pecaria pela obviedade e criação mínima. Preferi agraciar Wilde não pelo auge físico, mas sim ao seu espírito e as lembranças trazidas por cada palavra que dele li. O túmulo é uma homenagem memorial.
   
Pretendi demonstrar o carinho pela vida e obra de um gênio único, de grandeza imensurável. Vida e obra... Uma vida cujos momentos finais demonstraram o quão injusta pode ser nossa espécie. A desprezível arrogância que ronda a estupidez humana. Já a obra, uma marca nos brindando eternamente. Um presente de valor incalculável a todos com o privilégio de beber dessa fonte.
Resultado final com detalhamento.
A arte de Wilde é como ele a enxergava. Para ele, a arte é sempre inútil. Ela não tem que servir para nada, apenas despertar emoções e reflexões interiores. Arrebatar temporariamente o sentimento humano e se tornar um estado de espírito. Fugir ao "útil" e ser uma experiência íntima. Elevar, transcender a razão. Ele fazia isso muito bem e sabia disso. 

A companheira de Vivi Morbi, nesta cena, vem da mente do sueco  Stieg Larsson , romancista criador da trilogia Millenium. Ele já não compart...

A companheira de Vivi Morbi, nesta cena, vem da mente do sueco Stieg Larsson, romancista criador da trilogia Millenium. Ele já não compartilha da existência conosco, porém, a sua obra permaneceu e perdurará. Stieg criou Lisbeth Salander, uma desajustada diagnosticada como incapaz. Embora isso, ela é uma junkie de informática, hacker reconhecida no submundo da computação e uma investigadora extraordinária. Desde criança, chocou-se com a incompreensão das pessoas com as quais foi obrigada a conviver - como educadores, um psiquiatra e, depois de adulta, um tutor pervertido.
 
A trilogia Millenium obteve boa avaliação do público e da crítica, tornando-se um Bestseller mundial. Recebeu adaptações cinematográficas tanto na própria Suécia como em Hollywood. Para mim, ambas foram satisfatórias - e seguindo a opinião mais clichê: o livro é melhor. Lisbeth e Vivi têm dois elementos em comum: ambas são fictícias e têm estilos de vida alternativos. Porém, ao passo que Lisbeth é explosiva e tem dificuldades para administrar afetos, Vivi é ponderada e amorosa com seus familiares.
Várias tentativas no momento do esboço. Estava difícil encontrar uma decisão final.
Os Morbis estão sob uma maldição: durante gerações, é escolhida uma nascida menina para servir às vontades de entidades malignas e, assim evitar a eliminação da família. Nesse pesado fardo, resta a fé em um dia atingir a liberdade - um sonho distante, na verdade. A fé de Vivi é agir acreditando na possibilidade do êxito. A esperança permanece sendo cuidadosamente trabalhada para não se tornar uma crença. Na crença, Vivi estaria cega, pois teria a certeza da realização. Algo desligado da realidade. A luta é constante e os propósitos são calculadamente perseguidos.
A folha aguentou as aguadas. Méritos do sketchbook.
Vivi e Lisbeth vestem-se excentricamente. Desafiam os "normies" descendo escadarias sem desviar o olhar do horizonte. São classudas e excelentes em se permitir diferenciar do mundo "careta". Afinal, é assim o modo de agir de todos os integrantes de subculturas em torno do mundo. Os gostos e atitudes consideradas "estranhas" aos cidadãos ordinários são justamente o diferencial de suas personalidades. Compartilho desses aspectos das duas personagens. Sou um homem com uma certa idade, porém, não pretendo deixar pelo caminho os traços da minha formação de caráter.
Essa duplinha alegrou minha tarde de sábado.
Mas voltando à Lisbeth... Stieg Larsson toca em um tema bastante delicado. Caminho em ovos com isso porque também me incluo no assunto. O tema é o trauma. A personagem lida com graves feridas em sua história. Por ser calada e introspectiva - e com a dificuldade de se abrir emocionalmente - acabou sendo maculada por este mal seguidas vezes. As pessoas nos dizem para abandonarmos o passado e seguir em frente, superar, etc. Porém, quando se diz para "virar a página", estamos ignorando o fato de que alguns parágrafos de nossas vidas vão nos machucar capítulo após capítulo, ou até a palavra "FIM".

Em "O Livro de Ouro da Mitologia - Histórias de Deuses e Heróis" (Thomas Bulfinch - Ed. Agir [2015]) é possível obter informações ...


Em "O Livro de Ouro da Mitologia - Histórias de Deuses e Heróis" (Thomas Bulfinch - Ed. Agir [2015]) é possível obter informações gerais sobre mitologias orientais. Porém, não chega ao milenar Xintoísmo japonês. Em "Para Entender as Religiões" (Ed.: Ática [2000]) o tema é arranhado em um pouco de suas tradições, aspectos visuais, divindades e simbologias - uma porta de boas-vindas e introdução aos ligeiramente curiosos.
 
Na leitura estafante de "História do Japão - Origem, Desenvolvimento e Tradição de um País Milenar" (ACES [1995]) nos deparamos com uma linha do tempo desde as civilizações japonesas pré-históricas, aos acontecimentos políticos, das relações diplomáticas às conquistas militares do arquipélago asiático. Ainda assim, estranhamente não coloca atenção significativa no Xintoísmo.

Esboço. Esse foi mais detalhado.

Depreendi, com isso, da escassez de fontes informativas confiáveis deste assunto. Há mais a ser lido sobre através da Wikipedia. E foi antes de ela ser alimentada o suficiente, que aconteceu o meu aclive de interesse pelo Xinto entre 2000 e 2003 (após isso, deixei as pesquisas temporariamente à parte).
 
Os olhos estreitos de Amaterasu me acompanharam até o momento. Na cabeceira de minha cama há um grande quadro da sua gravura clássica, no momento de se revelar para fora da caverna, segundo as narrativas conhecidas. Trouxe-a para cá quando me mudei. Vejo nela um poder imponente, vivo e radiante. Há tempos me desvio de ser um adorador de coisa alguma ou mesmo um religioso pleno de fervor. Acredito, já a essa altura, estar fora de tal risco. Porém, admito encontrar no Xintoísmo uma relativa identificação.

No sketchbook, as cores.
Vejo-o como uma filosofia ou um jeito peculiar de encarar a realidade. Sou inclinado a acreditar nos espíritos de cada elemento, de cada ser sobre a Terra e na união de um todo com a Natureza. Nada de dogmas e exigências descabidas ou preceitos coercitivos. Apenas a liberdade de ser grato à vida simples, honesta e sagrada. E para completar, a belíssima mitologia Xinto. Uma história na qual podemos enxergar elementos humanos em suas deidades. E a nós, como espíritos sagrados, únicos e parte de um Universo misterioso.

Resultado final. Não precisou retoques digitais.
O Xintoísmo coexiste com todas as crenças. Não há rivalidades ou intenções hegemônicas sobre quaisquer outros grupos. Há, sim, acolhimento e respeito às individualidades. Mas as luzes do sol nascente também projetam sombras: nem tudo são flores de cerejeira. Há a supostas descendências divinas por parte de imperadores e famílias reais japonesas. Grupos sociais politicamente favorecidos, à despeito dos rituais de limpeza nos templos perfumados por incensos e nos decorados altares domésticos. Os turistas boquiabertos com as belezas das artes Xinto, talvez não percebam as presenças dos espíritos perversos transitando nos arredores. Pois há o mal, sim. Há o mal como em tudo entre o céu e a terra.

Vou da minha cozinha para meu estúdio aos sábados à tarde. Na cozinha tenho um cafezinho, uma revista para ler e algo para colocar no estôma...

Vou da minha cozinha para meu estúdio aos sábados à tarde. Na cozinha tenho um cafezinho, uma revista para ler e algo para colocar no estômago. No estúdio, a mesa de desenho, o display e meus materiais. Inspiro-me e parto para rabiscar. Essa terapia, reconhecida por muitos como hobby, traz-me saúde mental acompanhada de momentos bastante agradáveis. Os sábados são dias abençoados, em particular os chuvosos. Vivo esses momentos agora, já sendo um "senhor" da velha guarda.
 
Isso serve para arejar a mente, deixando a arte fluir e ventilar os miolos. Embora eu me concentre no processo e seja ele o protagonista, cada resultado satisfaz porque vejo as minhas ideias no papel. Folheio meus livros de referências para alimentar o repertório. Tenho muitos aqui. Folhear artbooks impulsiona a imaginação na hora de ir para a prancheta. Neles há grandes artistas, profissionais com a vida inteira dedicada à arte, demonstrando as suas habilidades e técnicas brilhantes.
Lápis solto. Estou me acostumando assim.
A mente não se alimenta apenas com imagens. Vou muito além do pictórico ao me colocar diante de uma folha em branco. Da poesia, literatura à música: tudo faz as engrenagens se moverem. A arte é presente em toda parte. Ela tem papel fundamental. Não podemos consumir entretenimento ou contemplar uma paisagem urbana sem a arte. Os veículos passam por nós dentro de arquiteturas magnificas, onde a população exibe seus vestuários cheios de personalidade.
Esse sketchbook da Dessin não para de me impressionar.
Os telefones em nossas mãos foram desenhados e eles exibem um universo digital mergulhado em projetos, layouts e percepções estéticas pensadas por um ou mais artistas. Habitamos um mundo amplo e profundo no qual qualquer percepção está pronta para identificar. Podemos distinguir uma a uma, cada criação em torno de nós, concebidas para a contemplação. Penso nas referências como uma matéria muito além da navegação no Pinterest ou em um prompt para a IA. Nossos sentidos captam e armazenam centenas de informações diariamente. Expressar isso é uma prática bastante intelectual.
 
Um exemplo claro do que digo, é a ilustração do post. Nela, vemos Vivi Morbi e Etrom em uma pose junto à já conhecida motocicleta "Vespa". Ao observar os primeiros esboços, percebi uma possível comparação com desenhos de dois artistas bem distintos. O Kazushi Hagiwara de "Bastard!" e "Flash Gordon" pelas mãos de Boris Vallejo. Um prompt rápido em uma IA pode trazer detalhes sobre ambos. Porém, minha atenção foi atraída justamente por eu não estar buscando uma releitura ou ter inspiração em lugar algum. Estava guardado no bunker de minha mente... pronto para se manifestar.
Resultado final. Fiquei contente.
Etrom é um personagem com o qual me envolverei mais e mais. Ele me faz ter boas recordações de outros tempos, quando eu fanzinava - e cometi alguns fiascos editoriais -, na metade para o final dos anos 1990. Era muito bom trabalhar com personagens em universos criados com referências bem pessoais. Sem "jornada de herói", estruturas de narrativas, etc. Lembro-me de ter como principal influência, na época, a Tank Girl de Alan Martin e Jamie Hewlett. Foram bons tempos e, de uma certa forma, estão se repetindo para mim (com todos os traumas superados). Já a Vivi, ela é uma querida e permanecerá nas suas aventuras. Observando com lentes mais precisas... até tenho uma galeria de personagens bem extensa. Mereço congratulações.

Encontro na literatura erótica uma forma de ir contra as imposições do cotidiano. Aqui está a minha desobediência particular, meu protesto e...


Encontro na literatura erótica uma forma de ir contra as imposições do cotidiano. Aqui está a minha desobediência particular, meu protesto e dissidência. Dou as costas às religiões, desafio a moral, juntamente às normas vindas de quaisquer direções. Silenciosamente, a cada leitura encontro o prazer, a cada narrativa uma paixão nasce, atinge o clímax e torna a alma mais aguçada. Afundo meu olhos nas páginas de Anais Nin, Fanny Hill e muitos outros autores de Dois Reais obtidos em um sebo vagabundo.
Esboço digital. Tomou mais tempo do que o pretendido.
Cada situação e descrição invocam sensações deliciosamente confusas dentro de mim. A imaginação imerge na mais movediça sensualidade e também no proibido - em todo o impossível fora da ficção. Conheço aventureiros sexuais, mulheres deliciosas e ousadas... ambientes impregnados de poesia, promiscuidade e liberdade. Os livros abrem caminhos para mais e mais fantasias, e então não há como voltar.
Lidenart um pouco desleixada.
Alço voos altos demais para me contentar com distâncias pequenas. Por isso, repito: encontro na literatura erótica uma forma de combater as restrições. Como um outsider, prossigo dono de minhas próprias regras... tanto na conduta, mais ainda dentro de minha mente. Sou amoral e contra os sistemas comumente defendidos por todos os grupos sociais. Sigo uma política exclusiva, constituída de convicções à prova de influências externas, rechaçando todas as tentativas de virem com discursos "prontos" para o meu lado.
Resultado final. Há uma certa simplicidade nesta imagem.
Em distinção à maioria, sustento a indiferença e o desdém diante do teatro imbecil com o qual me nego a participar. Sinto náuseas ao presenciar a cegueira de homens e mulheres no esforço constante para seguirem direitinho as "cartilhas" de pertencimento. Rebanhos enganados, massas sendo ludibriadas por ideais corrompidos desde muito tempo. Individualidades usurpadas, pensamentos mantidos em cárceres mentais sob a influência de ideologias só compreendidas nas suas superfícies. Todos enganados pela traiçoeira publicidade.
 
Seus manifestos públicos e argumentações políticas não servem para nada senão propagar os interesses de entidades realmente possuidoras do poder. Os representantes de "opostos", dizendo-se como água e óleo, na verdade servem à mesma origem. Revezam-se em ciclos, dentro intervalos de tempo calculados, em prol de interesses multibilionários. O único ato supostamente capaz de trazer a esperança da mudança (a nossa, daqui em baixo), deveria ser o voto. No entanto, já não vale de coisa alguma - o controle está sempre nas mesmas mãos.

Fazia incursões no meio da madrugada com o walkman na cintura e fones nos ouvidos. Não me importava com a economia, com o Estado, tampouco c...


Fazia incursões no meio da madrugada com o walkman na cintura e fones nos ouvidos. Não me importava com a economia, com o Estado, tampouco com as opiniões das pessoas. Parava diante das danceterias e ficava ali, olhando o movimento, porém completamente alheio. Minhas caminhadas pela cidade eram assim. Nas cassetes, uma das bandas de Heavy Metal mais importantes: Judas Priest. Sempre com o play na coletânea de três discos passados para as fitas.

Arte original.
Esse também era o meu jeito de lidar com a fritura psicológica aplicada por meus companheiros e companheiras de classe no segundo grau. Judas Priest (meu guia) rodava nos ouvidos e nada poderia me afetar. Porque eu era algo muito parecido com o "eu" atual: um outsider. Renegava religiões, ignorava a política e não dava a mínima às pessoas fora de meu meu circulo familiar. Isso porque não haviam amigos. Ser um "lobo solitário" era a minha conduta por livre escolha.
Lápis totalmente sem lapidação.
Além de invocar essas memórias da outra juventude, Judas Priest divide o topo das bandas aqui em Oniria. Cada disco, um deleite, uma experiência... por mais que se repita, ainda traz o prazer só possível pela boa música. Dentre meus prediletos, está o álbum "Painkiller". Alguns dizem que essa obra originou o chamado "Power Metal". Seja lá como chamam o gênero, eu apenas considero como música de qualidade. Forte, veloz, imponente. Uma pancada musical.
 
Mark Wilkinson foi o artista responsável pela criação da arte da capa de Painkiller. É um capista bastante conhecido por ter trabalhado em inúmeros outros títulos (não somente de Heavy Metal). E eu venho com a minha versão de Painkiller, usando a Vivi Morbi de minha webcomic. Coloco Vivi para substituir a figura do anjo pilotando a sua motocicleta demoníaca em um céu apocalíptico. O veículo agora é a Vespa da Vivi, vista bastante em sua webcomic.
No sketchbook, a aplicação de cores.
A execução dessa arte foi, como sempre, em um sábado à tarde, após um cafezinho. Interessante como percebi a passagem do tempo durante esse desenho. Iniciei às 15h e terminei às 18h30. Para mim, havia se passado quinze minutos. Fiquei realmente bem envolvido nesse projeto e não vi o tempo passar. Tudo fluiu naturalmente - do lápis, arte-final, à aquarela. Tenho me dado bem com as cores. Usar meu godê traz alguma satisfação. Relaxo bastante com a mistura de cores, o contato com os materiais, acompanhados da aplicação no papel.
 
Resultado final. Valeu a tarde de sábado.
O café, dessa vez, foi um L'or Ultimo Gourmet Pouch. É um investimento compensador. Estou passando essa marca apenas aos sábados e domingos. Durante a semana, passo café Pilão Tradicional. O L'or fica para quando o momento exige. Por se tratar de um café gourmet, não dá para consumir do dia a dia, pois isso pode gerar um rombo nas finanças. Gosto da torra máxima por trazer um sabor marcante e bem intenso. Habituei-me, desde muito tempo, a dispensar o açúcar - prefiro não alterar o sabor do café. E para acompanhar, vai uma fatia de bolo ou pães com margarina. Vê-se o bom gosto aqui em Oniria, sempre.

Nos meus afazeres de início de ano aqui na Oniria (meu estúdio), achei por bem colocar dentre as prioridades as atividades no blog. Da pranc...

Nos meus afazeres de início de ano aqui na Oniria (meu estúdio), achei por bem colocar dentre as prioridades as atividades no blog. Da prancheta vim até a minha workstation de edição para o post de partida de 2026. Claro, trazendo para cá uma nova página de meu sketchbook, resultante de uma tarde de sábado após um delicioso café.
 
"The Ultimate Sin" é o quarto álbum do saudoso Ozzy Osbourne, ex-vocalista da lendária banda Black Sabbath e uma figura mitológica da música e do Rock. Merecidamente, Ozzy é reconhecido por sua vida e obra. Poder, vitalidade e irreverência marcaram a trajetória do ídolo. Tenho, em minha coleção de CDs, algo do legado do artista na carreira solo. Um recorte que vai de Blizzard of Ozz, até No More Tears. Por causa da admiração às várias facetas de Ozzy, resolvi trazer uma releitura da capa de um disco tocado muitas vezes aqui em Oniria.

A obra surgindo no meu estilo e com meus personagens.

Sobre até onde conheço a carreira de Ozzy, ele foi acompanhado por grandes músicos ao longo de sua discografia, resultando em uma sequência irretocável de discos. Ou seja: teve os cuidados merecidos e à altura de seu talento e valor como personalidade e vocalista. Em "The Ultimate Sin", temos um trabalho primoroso da primeira à última faixa, sem ressalvas. "The Shot in the Dark", canção responsável por finalizar volume, está dentre as melhores de minha vida.

O Sketchbook é o aliado do artista.

O poder da música de Ozzy ultrapassa fronteiras e nos leva a estados de grande satisfação. Para mim, significados insubstituíveis a manter comigo eternamente. Eu explico. Durante uma de minhas piores crises, reergui-me ao som de The Shot in the Dark. Ela se repetia na playlist no Winamp de meu computador... Tive a compreensão e apoio de meu pai. Tive os remédios. E, aliados a eles, os papos no mIRC e MSN com amigos os quais nunca vi os rostos e que os identificava apenas por seus nicknames. Tudo decisivo para tornar possível a minha recuperação prontamente, após alguns meses de sofrimento.
 
Embora eu seja grato por tudo isso, vamos falar um pouco mais do presente momento. Mostro aqui, ao visitante de meu blog, a releitura da capa de The Ultimate Sin, originalmente criada pelo ilustrador de fantasia e Scifi, Boris Vallejo. Experimento novas técnicas de pintura e, com um certo egocentrismo, substituo as figuras da arte original por meus personagens: Vivi Morbi e Etrom. Ambos de minha HQ Vivi Morbi, publicada digitalmente.

No ano passado perdemos Ozzy poucas semanas após seu último show. Assisti a despedida com grande satisfação em ver um homem liberto das limitações do mundo, corajoso e forte. Mesmo não sendo um exemplo a ser seguido por sua vida pessoal, Ozzy foi um guerreiro até o último instante. Seu trabalho fez o mundo conhecer um grande poder criativo e ficar face à inovações fatídicas na história da música. O grande "Príncipe das Trevas" participou de um fenômeno, foi capaz ajudar a trazer ao mundo o gênero musical que tanto adoro: o Metal.