junho 2026 - Homem Quieto

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O incompreendido van Gogh degustava as tintas para conhecer o "sabor" das cores, demonstrando uma relativa perda de juízo a certa ...

O incompreendido van Gogh degustava as tintas para conhecer o "sabor" das cores, demonstrando uma relativa perda de juízo a certa altura de sua biografia. Embora dotado de genialidade, justificava a sua fama de insano com atitudes como tais - essas e todas as outras conhecidas pelos curiosos. Seu fim foi um suposto suicídio ou o acidente com uma arma de fogo. Já o brasileiro Candido Portinari, mesmo mais ponderado, deixou a existência de modo também trágico, ainda jovem - aos 58 anos. Mas foi devido ao puro azar: a intoxicação com o chumbo contido nas tintas com as quais lidava diariamente. 
 
Ninguém falou a eles que seria fácil. A estilística de van Gogh foi tida como insanidade quando concebida. Vendeu, em vida, apenas um quadro a um parente. Hoje toda a sua obra é posse para bilionários e museus. Em contraste com Leonardo da Vinci, contratado por grandes instituições, monarcas e militares. O que também não significava satisfação consigo. Da Vinci dizia nunca ter terminado nenhum de seus trabalhos, ele apenas os abandonava, para seguir ao próximo. Alcançar os pensamentos de alguns dos grandes nomes da história da arte é um desafio para quem só presencia as glórias.
 
Ou, ao menos, é um bom motivo para a reflexão. Assim como me fez uma entrevista que assisti no YouTube com a cartunista Laerte, criadora dos "Piratas do Tietê" e muitos outros personagens emblemáticos nos anos 80/90. Hoje, é colaboradora da Folha de São Paulo. Referiu-se sinceramente à própria produção como "medíocre". Ninguém consegue concordar com isso. Uma atuação profissional longeva, com momentos memoráveis e cartuns de extrema sofisticação - sem falhar um dia sequer - contentar apenas a nós: o público...? Não pude deixar de me afetar.
 
Artistas - como eu - têm calafrios ao se compararem a expoentes do meio ou com outros com obras fabulosas (embora pouco reconhecidos). Tanto que dentre os "monstros" nos rodeando, está a "síndrome do impostor", o "bloqueio criativo" e, por fim, a assustadora "comparação". Afligimo-nos fazendo de conta que não é conosco. Mas cedemos a atenção às dúvidas e autocríticas quando elas se manifestam sem avisar. O desabafo só acontece com os parceiros de ofício, os também artistas - dadas as dores em comum. Porque a nossa mente é muito precisa nisso: sabe exatamente onde o calo aperta para nos pisar com vigor.
 
E aposto com você: o sofrimento é compartilhado por cada ser humano que se propõe a se dedicar a um ofício artístico. E vou falar de mim. Meu último resto diurno foi a imagem de um homem bastante semelhante a um conhecido meu. Não era ele, de fato, mas tinha a aparência. Olhava-me severamente, de cima para baixo, esbravejando: "quem vai querer ver essas suas artes horríveis? Ninguém quer isso!". Remoí essa "bronca" de meu inconsciente durante todo o amargo café da manhã. O mal-estar se prolongou até o meio-dia. Precisei de um tempo para olhar para a minha prancheta sem receios.
 

A Arte, como fonte de angústias, também inspira o medo do futuro. Assim como o malfadado Candido Portinari, um colega de trabalho próximo da Laerte, o Angeli também foi acometido pela doença. Não por causa das condições de trabalho, tal Portinari, mas pelo destino. Angeli foi uma inspiração, uma força criadora fora do comum. O seu humor gráfico era refinado, debochado e hilário. Enfermidades chegam a qualquer um, só que pensar em um herói de infância tendo um desfecho desses... tão cedo (69 anos), dói muito. Olhar adiante traz temores: da arte, do fracasso, do sucesso, das fatalidades e das finanças. O cara do meu pesadelo estava se referindo a esses medos.

Ele tem uma diversidade de usos - preenche, contorna, acrescenta detalhes. O acabamento se torna refinado, o traço adquire elegância. Há o a...

Ele tem uma diversidade de usos - preenche, contorna, acrescenta detalhes. O acabamento se torna refinado, o traço adquire elegância. Há o aprimoramento ao aplicarmos o nanquim. Atravessando oceanos, ele veio do oriente de onde a escrita é "pincelada" e leva consigo atributos artísticos. Escribas e artistas o extraíam de moluscos marinhos, seres que produzem o pigmento preto como camuflagem para executar fugas diante de ameaças.

Essa tinta nobre já é reproduzida em laboratório, em larga escala, poupando um pouco a natureza de nós. Tornou-se mais um produto destinado ao ramo artístico profissional, escolar ou acadêmico. Está sob marcas registradas industriais: uma tradição milenar convertida em artigo de papelaria moderno. Nem por isso com a importância negada. O nanquim faz "magia" através de seu preto profundo pelas mãos de artistas gráficos.O desenho tradicional ainda é a forma de arte majoritária dentre as minhas escolhas. Aplicar tinta é um prazer. Um prazer possível porque requer precisão e treino. Há um leque de possibilidades - bastante amplo - na utilização desse material. Os resultados são diversos: estão nas técnicas e nos conhecimentos de como alcançar cada efeito sobre o papel. Não depende só da tinta, mas muito do artista.
 
E as ferramentas são múltiplas. Temos as canetas de ponta fina (as mais populares). E também a pena e o pincel. As recém-chegadas são as brushpens: canetas recarregáveis com pontas "pincel". Práticas, fáceis de lidar e portáveis, são queridas pela maioria dos desenhistas. Ideais para se carregar no estojo e trabalhar onde estiver: em locais públicos, ao ar livre, etc. E é no estojo onde elas permanecem quando estou em casa e diante de minha prancheta. Porque prefiro me pôr à prova e aplicar-me a finalizações mais meticulosas.

O autodesafio se torna natural após treinos insistentes. E as recompensas são maiores. O suspense é parte da utilização desse instrumento exigente. Os seus manejos só são bem-sucedidos após muita familiarização e a intimidade. Materiais tradicionais deveriam ser para todos... porém, em nossos dias, existe a ampla acessibilidade aos equipamentos de arte digital. Desse modo, o empenho com nanquim é passível de ser considerado uma insistência anacrônica. Espaço, limpeza e agilidade sacrificados podem ser questionados.
 
Dentre os que duvidam, há (ainda bem) a admiração manifesta por alguns. De todo modo, o nanquim continua em minha bancada de desenho. Está sempre presente na prancheta e ao meu alcance. Enquanto existirmos (eu e o nanquim), estaremos unidos: ferramenta e artista envolvidos, produzindo e comunicando. Entre a devoção e o desafio.