15/07/2026 - Nostalgia - Homem Quieto

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Há dois fatos me trazendo um certo "saudosismo" repetidamente. São sons. Primeiro, o apito do trem distante após as 20 horas. E o ...

15/07/2026 - Nostalgia

 
Há dois fatos me trazendo um certo "saudosismo" repetidamente. São sons. Primeiro, o apito do trem distante após as 20 horas. E o outro acontece aos sábados: ouço o sino da igreja dobrar em torno das 18 horas. Jamais embarquei em um trem, tampouco sou católico. Não tenho recordação alguma associada, mas quando ouço esses sinais, eles me trazem sensações de familiaridade. Não creio em vidas passadas. Também duvido se as memórias intrauterinas são guardadas ou o DNA registra lembranças.
 
Mas o passado é fascinante, ainda assim. Por exemplo: sou interessado por eventos importantes dos anos 80 e os assuntos daquela época, mas eu ainda era jovem demais para extrair deles algum sentimento. Recentemente, revirei meu armário em busca de algo para ler nos meus cafés dos sábados à tarde. Os resultados das buscas foram duas revistas: uma AnimeDO 2000 e uma Henshin - ambas com o nome do mangaka Masakazu Katsura na capa. Na Henshin, uma entrevista exclusiva, na AnimeDO uma matéria breve. Quando o primeiro sucesso de Katsura estreou, não havia como eu ter conhecido.
 
Só pude ler Video Girl AI em 2001, indo do volume 01 ao 08. Foi um lançamento pela editora JBC em "meio tanko", no formatinho. É uma historinha de amor entre um rapaz ordinário japonês e uma "namorada" saída - magicamente - de uma fita VHS. Em 1989, os videocassetes e suas grandes e negras fitas VHS eram a bola da vez. E os relacionamentos afetivos, tema menos oportunista, eram parte do interesse do leitor nipônico. Masakazu é hábil em explorar relacionamentos e, também, o erotismo.
 
Embora os adolescentes fossem o nicho do mangá, há nele cenas picantes... a anatomia feminina quadro a quadro e atos diversos ocorrendo sob as cobertas. Entrei bem no clima da novelinha. A imaginação pregou peças e logo me perguntei se eu estaria relembrando algo ao folhear cada volume de Video Girl AI. Na entrevista à Henshin, o autor revela não ler nada do que ele próprio desenha/escreve e que não costuma planejar mais do que três capítulos das suas HQs, antes de as começar. Diz não ter relação estreita com os mangás e ser mais chegado à TV e ao cinema. Compra comics do Batman só para ver as artes.
 
Masakazu é quase como eu. Sou um consumidor muito esporádico de Quadrinhos. Evito muitas obras importantes e acabo desatualizado. A recente descoberta foram as tirinhas da Mafalda do cartunista argentino Quino. Conhecer Mafalda não é essencial, mas vai bem. Encontramos, na produção de Quino, muito das preocupações da década de 60/70 relacionadas à política, religião e outros temas sociais importantes - mas sob um ponto de vista ingênuo - na visão de crianças. O que torna as pautas mais contundentes. É difícil ler um volume inteiro de uma vez - logo, pego o PDF e faço um tipo de sorteio nas páginas...  
 
Quino demonstra o poder do entretenimento de massa em dialogar individualmente e com um público-alvo. Acontece a identificação e a obra se torna cultuada por grupos, subgrupos e indivíduos. Refleti um bocado sobre isso e, intrigado, perguntei-me: seria possível haver algum risco em torno das distrações? E a resposta foi a de quase nenhum problema. O lazer é bem-vindo sempre, e o entretenimento ajuda o descanso. Mas o contrário também constou nas minhas pesquisas, e ele veio do passado. Escrolar um feed, maratonar uma série ou jogar um videogame são atos que seriam condenados pelo Jansenismo.
 
A antiga tradição católica considerava os passatempos - ou os entretenimentos - como responsáveis por nos afastar dos propósitos de Deus e da salvação da alma. Isso porque eles estariam atribuídos à vaidade, ao pecado e ao desvio espiritual. O mais impressionante é que ainda há quem pense assim até hoje. De todo modo, no presente, envolver-se com a Video Girl AI de Masakazu ou mergulhar nas tirinhas da Mafalda do Quino é, além de mero entretenimento, a viagem no tempo e ao saudosismo por momentos - talvez - presenciados exclusivamente no inconsciente coletivo. É libertar a imaginação, pôr-se a pensar e manter memórias, afetivas ou não.