Questionaram-me a respeito de minhas personagens não terem mais "rostos". Dado os motivos sensuais dos cartuns e ilustrações nesse momento de minhas produções, leitores criticaram a "objetificação" da figura feminina - na qual o corpo é evidente e a personalidade, anulada. De fato, meus detalhes mantém a atenção em lábios pintados, formas curvilíneas e trajes fetichistas. No entanto, as reações me parecem deduções precipitadas. Ainda assim, não contrario as leituras do público, pois é ele quem dá nome aos bois.
A evolução de meu traço - nessa direção - ocorreu espontaneamente. Quando tomei a decisão de pôr tais características das ditas "mulheres objetificadas" nos desenhos, abri mão das expressões faciais. Desenhar o rosto é essencial para transmitir os sentimentos e emoções de uma figura. Hoje, limitei-me a bocas curvadas ou sorrindo - no máximo - para comunicar os pensamentos dentro de semblantes vazios.
Observaram também que meus personagens masculinos têm as faces completas e detalhadas. Por isso, eu estava dando a eles mais potenciais de protagonizar as narrativas. Os leitores que afirmaram tal sentença têm preocupações - muito provavelmente - profundas com o sexismo. O jeito como coloco meus pensamentos no papel não coincide com esse julgamento - bem pelo contrário. O foco das críticas está apenas nas aparências.
Esbarrando com minha percepção desse todo: a de que desenho com a intuição, através do simples tato junto às imagens. Timothy Wilson, psicólogo na Universidade da Virgínia, nos diz sobre a intuição atuar sem que nos demos conta, acontecendo segundo as nossas experiências. A analogia é a de uma aeronave possível de ser colocada em "piloto automático". O cérebro leva ao inconsciente tarefas já consolidadas - antes executadas de forma racional. No desenho, após um experimento após o outro e uma conclusão de algo estar funcionando, passa a ser uma escolha íntima e intuitiva.
Um fetichista? Alguém que considera as mulheres objetos? Talvez em uma
leitura superficial, pois se limita à estética, e é diferente de minhas
condutas. A expressão, que escolho, transmite apenas meus gostos
pictóricos. Quando desenho, uso uma "persona" - do verbo "personare" -
cujo significado é "soar por meio de". Na Grécia antiga, era um recurso
cênico. O ator usava uma máscara para incorporar o papel com maior
verossimilhança. A máscara também trazia a possibilidade de amplificar a
voz, alcançando o público mais distante do palco - daí o "soar por...".
Segundo o ponto de vista de Anna Rita Sartore, Doutora pela USP - quando fala da escrita -, na manifestação do inconsciente dentro da seleção do vocabulário, encontra-se apenas a trajetória psíquica do autor. Segundo Anna, sob os vieses da psicanálise, um estilo, descrito como a marca de uma singularidade, não revela a personalidade do sujeito. Ou seja: é impossível analisar clinicamente uma pessoa se baseando em suas produções literárias. Trazendo à minha seara: a linguagem que faço uso não revela traços profundos de quem sou.
Portanto, meus desenhos fazem parte de uma persona poética. Sou confortável ao lidar com meus pincéis e tintas, sabendo da sinceridade de cada linha. As personagens são postas no mundo com o intuito de fazer o que já estão fazendo: gerar interpretações e constatações, por isso me dou por contente. Esse é o papel de um trabalho artístico. O conflito e a reflexão - negativos ou positivos - estão dentro do que considero êxito nas soluções gráficas de meu agrado. Desenharei como quero diante de quaisquer reações sem levar para o lado pessoal.



