agosto 2026 - Homem Quieto

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Questionaram-me a respeito de minhas personagens não terem mais "rostos". Dado os motivos sensuais dos cartuns e ilustrações nesse...

Questionaram-me a respeito de minhas personagens não terem mais "rostos". Dado os motivos sensuais dos cartuns e ilustrações nesse momento de minhas produções, leitores criticaram a "objetificação" da figura feminina - na qual o corpo é evidente e a personalidade, anulada. De fato, meus detalhes mantém a atenção em lábios pintados, formas curvilíneas e trajes fetichistas. No entanto, as reações me parecem deduções precipitadas. Ainda assim, não contrario as leituras do público, pois é ele quem dá nome aos bois.
 
A evolução de meu traço - nessa direção - ocorreu espontaneamente. Quando tomei a decisão de pôr tais características das ditas "mulheres objetificadas" nos desenhos, abri mão das expressões faciais. Desenhar o rosto é essencial para transmitir os sentimentos e emoções de uma figura. Hoje, limitei-me a bocas curvadas ou sorrindo - no máximo - para comunicar os pensamentos dentro de semblantes vazios.
 
Observaram também que meus personagens masculinos têm as faces completas e detalhadas. Por isso, eu estava dando a eles mais potenciais de protagonizar as narrativas. Os leitores que afirmaram tal sentença têm preocupações - muito provavelmente - profundas com o sexismo. O jeito como coloco meus pensamentos no papel não coincide com esse julgamento - bem pelo contrário. O foco das críticas está apenas nas aparências.
  
Esbarrando com minha percepção desse todo: a de que desenho com a intuição, através do simples tato junto às imagens. Timothy Wilson, psicólogo na Universidade da Virgínia, nos diz sobre a intuição atuar sem que nos demos conta, acontecendo segundo as nossas experiências. A analogia é a de uma aeronave possível de ser colocada em "piloto automático". O cérebro leva ao inconsciente tarefas já consolidadas - antes executadas de forma racional. No desenho, após um experimento após o outro e uma conclusão de algo estar funcionando, passa a ser uma escolha íntima e intuitiva.
 
Um fetichista? Alguém que considera as mulheres objetos? Talvez em uma leitura superficial, pois se limita à estética, e é diferente de minhas condutas. A expressão, que escolho, transmite apenas meus gostos pictóricos. Quando desenho, uso uma "persona" - do verbo "personare" - cujo significado é "soar por meio de". Na Grécia antiga, era um recurso cênico. O ator usava uma máscara para incorporar o papel com maior verossimilhança. A máscara também trazia a possibilidade de amplificar a voz, alcançando o público mais distante do palco - daí o "soar por...".
 
Segundo o ponto de vista de Anna Rita Sartore, Doutora pela USP - quando fala da escrita -, na manifestação do inconsciente dentro da seleção do vocabulário, encontra-se apenas a trajetória psíquica do autor. Segundo Anna, sob os vieses da psicanálise, um estilo, descrito como a marca de uma singularidade, não revela a personalidade do sujeito. Ou seja: é impossível analisar clinicamente uma pessoa se baseando em suas produções literárias. Trazendo à minha seara: a linguagem que faço uso não revela traços profundos de quem sou.
  
Portanto, meus desenhos fazem parte de uma persona poética. Sou confortável ao lidar com meus pincéis e tintas, sabendo da sinceridade de cada linha. As personagens são postas no mundo com o intuito de fazer o que já estão fazendo: gerar interpretações e constatações, por isso me dou por contente. Esse é o papel de um trabalho artístico. O conflito e a reflexão - negativos ou positivos - estão dentro do que considero êxito nas soluções gráficas de meu agrado. Desenharei como quero diante de quaisquer reações sem levar para o lado pessoal.

Caso eu fosse visitado por uma fada me trazendo uma proposta mágica, eu a ouviria. Digamos ser o milagre oferecido, o de eu ter o traço de q...



Caso eu fosse visitado por uma fada me trazendo uma proposta mágica, eu a ouviria. Digamos ser o milagre oferecido, o de eu ter o traço de qualquer artista de meus gostos, adquirido sem estudo ou prática. Eu diria a ela para ir visitar outra pessoa. Estou satisfeito com o meu desenho. E isso não é falta de modéstia: encontrei um jeito de trabalhar, sendo ele prazeroso e que me traz realização. E eu não o abandonaria por nada. 
 
Persisto em meus métodos, pois atravessei doze anos desenhando para os alcançar. E nesse caminho, há variações no progresso - muitas vezes bem parecidas com o retrocesso nas habilidades. As escolhas foram aceitas e rejeitadas, deixei pedaços de mim nesse trajeto. Foi frustrante e empolgante na mesma medida. Tanto tive o desejo de atirar tudo para o alto, quanto a ansiedade de me livrar das obrigações formais para correr à prancheta todos os dias.
 
E assim, foram-se cinco, dez, doze anos para descobrir como executar e aprimorar o traço. A busca por referências e informações para acelerar o aprendizado jamais cessou. Também houve os investimentos nos cursos de desenho. Mantive a dedicação de quem ignorou o medo. O medo esse - o de falhar - que ocorreu sempre de mãos unidas ao prazer de me distanciar do mundo e dos problemas. Acredito ser justamente o processo o fator determinante para motivar um artista.
 
Quando estou aqui, em Oniria, entregue às minhas produções, nada me atinge. Os momentos de trabalho transformam cada segundo em algo que fada madrinha alguma é capaz de melhorar. Não digo de um jeito afetado de quem se considera um "artista". Sou humilde e muito apto a reconhecer as limitações em tudo o que me proponho a fazer. Mas sigo. Porque não estou preocupado. Quem dita o meu ritmo é a diligência à arte - o restante, abandono.
 
Hoje, diferente de alguns momentos do passado, a angústia de estar diante de uma folha em branco quase se escondeu de mim. Embora as referidas limitações, quando pego o papel, sei que posso imaginar e transferir o pensamento para lá. Isso até me prega algumas peças. Tenho muitas pareidolias diárias e constantes. Surgem desenhos em sombras, objetos e manchas. Meu olhar se detém em um canto da mesa e projeto uma mulher em miniatura - e ela praticamente se materializa diante da visão.
 
Não sei se é uma habilidade ou uma "fertilização" deliberada da imaginação. Ignorando se é um ou outro, penso nisso como consequência do trabalho com as imagens - talvez adquirida naturalmente. Levando-me a pensar se há a preocupação em desenvolver práticas como essas pelos iniciantes da atualidade. Tenho visto, nas redes sociais, excelentes demonstrações de talentos. É bonito e atrativo. Porém, observo sempre que, ou os vídeos são picotados ou acelerados. Isso representa um perigo. Fica parecendo que o processo inexistiu.
 
Para um neófito, traz o equívoco da rapidez e da facilidade ao executar uma obra - fica perfeito e linear. Os resultados surgem em menos de um minuto. A prática real revela o oposto: as tentativas e erros, cada passo sendo estudado, ajustado e toda a aplicação de esforços omitida pelas edições. O desenhista permanece na companhia de uma folha ao passar de horas, dias. Cada linha de nanquim é traçada lentamente, com a respiração presa, para ter precisão e não botar tudo a perder. Recuso a oferta da fada, pois construí o que tenho por mim e aprecio o meu processo.