Acrescentei um novo hábito ao meu cotidiano. Dentre os últimos meses do ano passado e a semana presente, carreguei na mochila alguns sketchbooks de 14x21,5cm. Nada de folhas especiais e demais luxos, mas sim papel simples e boa encadernação. O hábito ao qual me refiro foi o uso quase diário dos cadernos. Mantive a constância nos dias úteis das semanas. Aos fins de semana, a regra são os projetos em quadrinhos. Reservo exclusivamente aos sábados o tempo mais prolongado em cima dos sketchbooks principais, onde as artes são melhor trabalhadas.
O realce sobre este experimento está no valor da persistência e da atenção. É ter de se concentrar todos os dias sobre o papel deixando as ideias fluírem, sejam quais forem os resultados. O uso do sketchbook menor também recebeu delimitações de tempo rigorosas: 15 minutos no meio da manhã e 15 minutos no meio da tarde. Quando
iniciei, tentei a pausa após o almoço, mas preferi voltar aos intervalos citados. Complemento que, em alguns momentos, não me contentei com as execuções. Apesar disso, prossegui.
Dentro destas restrições, obtive
mais fluência e agilidade, as ideias surgiam a todo instante.
Observando por um certo prisma, a minha criatividade aguçou - nunca estive
tão inspirado. O hábito era quase ritualístico: abrir o estojo, armar a pequena prancheta (um suporte para laptop de improviso) e ir para uma folha em branco. Desenhar e desenhar, explorar possibilidades. Um exercício o qual considero comparável ao ato de meditar. Através dele me permiti aplicar os aprendizados retidos ao longo dos anos.
A teoria, por si só, pode ser estéril caso não esteja aliada à prática. Fui bastante aplicado no desenho a partir da segunda metade da década passada. Só que eu o fazia - como já dito - somente aos sábados à tarde. De fato, com alguma regularidade. Mas obtive progressos satisfatórios, após os experimentos contínuos. Foram refinadas, no dia a dia, inúmeras peculiaridades ao meu traço - como as figuras humanas, os fetiches, as faces "vazias" femininas. Talvez tais avanços fossem adiados sem tal atitude. Essa mudança de ritmo incorporou aprimoramentos bastante valiosos às minhas produções principais.
Fechei o terceiro sketchbook menor, pela última vez, nessa semana. Olhei através da janela e deixei a mente um pouco "desocupada" - tanto nos 15 minutos da manhã, quanto nos 15 minutos da tarde. Optei por um curto período de reflexão - sem desenhar. Em breve retornarei, no entanto preciso de um "tempo". Não acho positivo tornar uma prática agradável, embora regular, em uma obrigação. Não há por que lhe retirar o brilho. Tenho fome de fazer arte e objetivos claros para mim. Porém, é necessário respirar para prosseguir.



