Homem Quieto: Ilustração

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Setembro de 1995. Frequentava a banca de revistas do calçadão próxima ao fliperama. Queria HQs, ou publicações informativas sobre terror. Po...



Setembro de 1995. Frequentava a banca de revistas do calçadão próxima ao fliperama. Queria HQs, ou publicações informativas sobre terror. Porém, minha atenção se voltou à gôndola das animações. Estava diante de uma Japan Fury. No volume, imagens de animes os quais jamais ouvira falar. Os Cavaleiros do Zodíaco - a bola da vez - recebiam destaque para chamar a atenção do público. Conhecia o "Cavaleiros" do ano anterior, quando o tema de abertura me fazia trocar rapidamente de canal para o torpor da MTV. Preferia os videoclipes, VJ's... o Beaves e Butt-head. 
O lápis foi tranquilo. Bem rápido.

Havia me distanciado definitivamente dos amigos de infância e da adolescência. Colecionava discos de Metal Extremo, Heavy Metal... estava frustrado com as aulas de guitarra. Precisava de novidades. Portanto, levei a Japan Fury na sacola juntamente a uma graphic novel do Wolverine. A linha editorial da Japan Fury era diferente, havia um tempero e uma comunicação bem peculiares. A curiosidade só crescia. Quem eram aqueles personagens de olhos imensos? Como podiam ter histórias tão absurdas? Brevemente, meu interesse fora capturado. O que também se tornou um dos motivos de eu voltar a desenhar.

 Depois veio a revista Herói e a quase homônima Heróis do Futuro. Sob a influência de tais leituras, passei a prestar mais atenção nas animações japonesas nas locadoras. Arrumei dois empregos (um deles com expediente nos fins de semana) e estudava à noite. O pouco tempo não rivalizava com a minha disposição juvenil. Eu desenhava e lia bastante e ainda trocava correspondências com outros fãs de animes e mangás. Era como eu aproveitava o tempo sem interações sociais - as quais não sentia a mínima falta.

Coloquei o sketchbook para rodar.
Aos sábados à tarde - quando de folga -, garimpava nas locadoras. Animes de todos os tipos surgiam dessas incursões. Já os mangás eram mais difíceis de se encontrar - os mais acessíveis e traduzidos, só os pornográficos (Hentais). U Jin e companhia povoavam as minhas gavetas. Alguns deles eram bem "errados", por assim dizer. No entanto, estavam esteticamente dentro de meus gostos. Quanto às buscas nas locadoras... executei longos trajetos através de todos os bairros com dedicação. Tendo dois videocassetes, assistia às VHS's e as copiava durante a noite para ver novamente em outros momentos. Vou listar aqui alguns dos achados mais significativos:

• Akira • Lady Oscar • A Espada de Kamui • Leda • Loke - O Superman das Galáxias • Lensmen • Capitão Harlock • Galaxy Express 999 • Lupin • Gato de Botas • Gamba • Robotech • Don Drácula • Gigi e a Fonte da Juventude • Baldios • Poderes Eróticos • Sonhos Molhados • Pop Shaser • Jovens Guerreiros • Terror em Love City, dentre outros.

No final, minha homenagem ao "Leda" completa.

Dessa lista, um dos mais legais era o OAV (Original Anime Video) "Leda". A boa animação e a historinha simples me fizeram assistir a este anime incontáveis vezes. O clima era de melancolia em uma cisão com a ação e a aventura. Eu, ainda imaturo, afeiçoei-me desmioladamente pela Yohko Asagiri, a protagonista. Mesmo com tantos sentimentos envolvidos, depois de uns dois ou três anos, deixei-o de lado. Vieram os fansubs (legendagens de animes feitas por fãs) e as coisas mudaram. Depois, com as novas tecnologias, os videocassetes não deixaram vestígios. Revisito hoje as imagens de Leda na internet e revivo antigas sensações. Tantas alegrias e angústias para recordar... Trago essa mistura ao post de hoje, onde meus personagens homenageiam a animação.
 
Lembrar de Leda no meu traço resgata os tempos do brilho no olhar com cada nova descoberta nos animes/mangás. E, também, de um ocorrido interessante: quando minha prima - prestes a se formar no colegial - me convidou para participar de uma feira de talentos do colégio onde estudava. Ela me deu um roteiro e pediu para quadrinizar. Levamos dois meses no projeto. Fizemos xerox das páginas e montamos um mural. Foi a primeira exposição de meus desenhos a mais pessoas do que apenas meu núcleo familiar. Acompanhei minha prima durante os dois dias do evento. Dentre críticas e elogios, sobrevivemos bem e, se não estou enganado, ela teve uma nota muito boa. São coisas como essas o motivo pelo qual continuo me dedicando ao desenho e à escrita. E tudo começou com um... exemplarzinho da Japan Fury.

Na capa de estreia da revista The New Yorker, lançada há (mais ou menos) cem anos, há a ilustração cartunesca retratando um dândi. Estava al...

Na capa de estreia da revista The New Yorker, lançada há (mais ou menos) cem anos, há a ilustração cartunesca retratando um dândi. Estava ali uma caricatura clichê deslocada de sua essência. A figura afetada, almofadinha, examinava uma borboleta através de um monóculo. A sua aparência é uma fachada, uma estética ilusória de quem só quer os holofotes para si. Naquele caso, a imagem do dândi fora convertida na de um poseur - a superficialidade de uma encenação: imagens, personalidades e raciocínios nada genuínos. Em contraste evidente ao mais conhecido dândi da literatura do século XIX: o irlandês Oscar Wilde.
 
Napoleon Sarony, renomado fotógrafo e suas lentes, eternizou o semblante de Oscar Wilde. Na clássica foto do dândi, vemos-no com a juventude em flor e a mente aguçada desafiando a moral daquele momento. Essa é a melhor imagem para recordarmos dele e de sua idiossincrasia tão peculiar. Como escritor, sabia chocar. Um habilidoso aforista, comumente reconhecido por seus paradoxos (frases unindo divergências e fazendo todo sentido). Tais pérolas, por vezes, revoltavam opiniões, pois eram provocativas e, ao mesmo tempo, concebidas com genialidade notável.
Havia um esboço por trás dessa camada. Mas vou deixar só o mais refinado aqui.

Há muitas das publicações de Oscar Wilde - meu escritor de cabeceira - nas estantes de Oniria (o ambiente onde escrevo e desenho). Meu respeito à obra de Wilde é pleno e a sua personalidade me é objeto de culto. Sentia-me devendo em demonstrar gratidão aos pensamentos surgidos no riscar de meus contatos com a literatura. Para tanto, trouxe o post de hoje: a minha sincera reverência a Wilde em um desenho digital. Coloquei nele muito sentimento e o comprometimento de o executar bem - podemos estar seguros disso. O desenho veio com muita dedicação aos detalhes e capricho.

A arte final foi mais minuciosa do que parece.
Nele, estamos diante do túmulo silente de Wilde sendo visitado por Etrom e Cláudia, de minha HQ autoral, Vivi Morbi, publicado no Fliptru. Fazer um retrato inspirado na foto tirada pelo Sarony pecaria pela obviedade e criação mínima. Preferi agraciar Wilde não pelo auge físico, mas sim ao seu espírito e as lembranças trazidas por cada palavra que dele li. O túmulo é uma homenagem memorial.
   
Pretendi demonstrar o carinho pela vida e obra de um gênio único, de grandeza imensurável. Vida e obra... Uma vida cujos momentos finais demonstraram o quão injusta pode ser nossa espécie. A desprezível arrogância que ronda a estupidez humana. Já a obra, uma marca nos brindando eternamente. Um presente de valor incalculável a todos com o privilégio de beber dessa fonte.
Resultado final com detalhamento.
A arte de Wilde é como ele a enxergava. Para ele, a arte é sempre inútil. Ela não tem que servir para nada, apenas despertar emoções e reflexões interiores. Arrebatar temporariamente o sentimento humano e se tornar um estado de espírito. Fugir ao "útil" e ser uma experiência íntima. Elevar, transcender a razão. Ele fazia isso muito bem e sabia disso. 

A companheira de Vivi Morbi, nesta cena, vem da mente do sueco  Stieg Larsson , romancista criador da trilogia Millenium. Ele já não compart...

A companheira de Vivi Morbi, nesta cena, vem da mente do sueco Stieg Larsson, romancista criador da trilogia Millenium. Ele já não compartilha da existência conosco, porém, a sua obra permaneceu e perdurará. Stieg criou Lisbeth Salander, uma desajustada diagnosticada como incapaz. Embora isso, ela é uma junkie de informática, hacker reconhecida no submundo da computação e uma investigadora extraordinária. Desde criança, chocou-se com a incompreensão das pessoas com as quais foi obrigada a conviver - como educadores, um psiquiatra e, depois de adulta, um tutor pervertido.
 
A trilogia Millenium obteve boa avaliação do público e da crítica, tornando-se um Bestseller mundial. Recebeu adaptações cinematográficas tanto na própria Suécia como em Hollywood. Para mim, ambas foram satisfatórias - e seguindo a opinião mais clichê: o livro é melhor. Lisbeth e Vivi têm dois elementos em comum: ambas são fictícias e têm estilos de vida alternativos. Porém, ao passo que Lisbeth é explosiva e tem dificuldades para administrar afetos, Vivi é ponderada e amorosa com seus familiares.
Várias tentativas no momento do esboço. Estava difícil encontrar uma decisão final.
Os Morbis estão sob uma maldição: durante gerações, é escolhida uma nascida menina para servir às vontades de entidades malignas e, assim evitar a eliminação da família. Nesse pesado fardo, resta a fé em um dia atingir a liberdade - um sonho distante, na verdade. A fé de Vivi é agir acreditando na possibilidade do êxito. A esperança permanece sendo cuidadosamente trabalhada para não se tornar uma crença. Na crença, Vivi estaria cega, pois teria a certeza da realização. Algo desligado da realidade. A luta é constante e os propósitos são calculadamente perseguidos.
A folha aguentou as aguadas. Méritos do sketchbook.
Vivi e Lisbeth vestem-se excentricamente. Desafiam os "normies" descendo escadarias sem desviar o olhar do horizonte. São classudas e excelentes em se permitir diferenciar do mundo "careta". Afinal, é assim o modo de agir de todos os integrantes de subculturas em torno do mundo. Os gostos e atitudes consideradas "estranhas" aos cidadãos ordinários são justamente o diferencial de suas personalidades. Compartilho desses aspectos das duas personagens. Sou um homem com uma certa idade, porém, não pretendo deixar pelo caminho os traços da minha formação de caráter.
Essa duplinha alegrou minha tarde de sábado.
Mas voltando à Lisbeth... Stieg Larsson toca em um tema bastante delicado. Caminho em ovos com isso porque também me incluo no assunto. O tema é o trauma. A personagem lida com graves feridas em sua história. Por ser calada e introspectiva - e com a dificuldade de se abrir emocionalmente - acabou sendo maculada por este mal seguidas vezes. As pessoas nos dizem para abandonarmos o passado e seguir em frente, superar, etc. Porém, quando se diz para "virar a página", estamos ignorando o fato de que alguns parágrafos de nossas vidas vão nos machucar capítulo após capítulo, ou até a palavra "FIM".

Em "O Livro de Ouro da Mitologia - Histórias de Deuses e Heróis" (Thomas Bulfinch - Ed. Agir [2015]) é possível obter informações ...


Em "O Livro de Ouro da Mitologia - Histórias de Deuses e Heróis" (Thomas Bulfinch - Ed. Agir [2015]) é possível obter informações gerais sobre mitologias orientais. Porém, não chega ao milenar Xintoísmo japonês. Em "Para Entender as Religiões" (Ed.: Ática [2000]) o tema é arranhado em um pouco de suas tradições, aspectos visuais, divindades e simbologias - uma porta de boas-vindas e introdução aos ligeiramente curiosos.
 
Na leitura estafante de "História do Japão - Origem, Desenvolvimento e Tradição de um País Milenar" (ACES [1995]) nos deparamos com uma linha do tempo desde as civilizações japonesas pré-históricas, aos acontecimentos políticos, das relações diplomáticas às conquistas militares do arquipélago asiático. Ainda assim, estranhamente não coloca atenção significativa no Xintoísmo.

Esboço. Esse foi mais detalhado.

Depreendi, com isso, da escassez de fontes informativas confiáveis deste assunto. Há mais a ser lido sobre através da Wikipedia. E foi antes de ela ser alimentada o suficiente, que aconteceu o meu aclive de interesse pelo Xinto entre 2000 e 2003 (após isso, deixei as pesquisas temporariamente à parte).
 
Os olhos estreitos de Amaterasu me acompanharam até o momento. Na cabeceira de minha cama há um grande quadro da sua gravura clássica, no momento de se revelar para fora da caverna, segundo as narrativas conhecidas. Trouxe-a para cá quando me mudei. Vejo nela um poder imponente, vivo e radiante. Há tempos me desvio de ser um adorador de coisa alguma ou mesmo um religioso pleno de fervor. Acredito, já a essa altura, estar fora de tal risco. Porém, admito encontrar no Xintoísmo uma relativa identificação.

No sketchbook, as cores.
Vejo-o como uma filosofia ou um jeito peculiar de encarar a realidade. Sou inclinado a acreditar nos espíritos de cada elemento, de cada ser sobre a Terra e na união de um todo com a Natureza. Nada de dogmas e exigências descabidas ou preceitos coercitivos. Apenas a liberdade de ser grato à vida simples, honesta e sagrada. E para completar, a belíssima mitologia Xinto. Uma história na qual podemos enxergar elementos humanos em suas deidades. E a nós, como espíritos sagrados, únicos e parte de um Universo misterioso.

Resultado final. Não precisou retoques digitais.
O Xintoísmo coexiste com todas as crenças. Não há rivalidades ou intenções hegemônicas sobre quaisquer outros grupos. Há, sim, acolhimento e respeito às individualidades. Mas as luzes do sol nascente também projetam sombras: nem tudo são flores de cerejeira. Há a supostas descendências divinas por parte de imperadores e famílias reais japonesas. Grupos sociais politicamente favorecidos, à despeito dos rituais de limpeza nos templos perfumados por incensos e nos decorados altares domésticos. Os turistas boquiabertos com as belezas das artes Xinto, talvez não percebam as presenças dos espíritos perversos transitando nos arredores. Pois há o mal, sim. Há o mal como em tudo entre o céu e a terra.

Vou da minha cozinha para meu estúdio aos sábados à tarde. Na cozinha tenho um cafezinho, uma revista para ler e algo para colocar no estôma...

Vou da minha cozinha para meu estúdio aos sábados à tarde. Na cozinha tenho um cafezinho, uma revista para ler e algo para colocar no estômago. No estúdio, a mesa de desenho, o display e meus materiais. Inspiro-me e parto para rabiscar. Essa terapia, reconhecida por muitos como hobby, traz-me saúde mental acompanhada de momentos bastante agradáveis. Os sábados são dias abençoados, em particular os chuvosos. Vivo esses momentos agora, já sendo um "senhor" da velha guarda.
 
Isso serve para arejar a mente, deixando a arte fluir e ventilar os miolos. Embora eu me concentre no processo e seja ele o protagonista, cada resultado satisfaz porque vejo as minhas ideias no papel. Folheio meus livros de referências para alimentar o repertório. Tenho muitos aqui. Folhear artbooks impulsiona a imaginação na hora de ir para a prancheta. Neles há grandes artistas, profissionais com a vida inteira dedicada à arte, demonstrando as suas habilidades e técnicas brilhantes.
Lápis solto. Estou me acostumando assim.
A mente não se alimenta apenas com imagens. Vou muito além do pictórico ao me colocar diante de uma folha em branco. Da poesia, literatura à música: tudo faz as engrenagens se moverem. A arte é presente em toda parte. Ela tem papel fundamental. Não podemos consumir entretenimento ou contemplar uma paisagem urbana sem a arte. Os veículos passam por nós dentro de arquiteturas magnificas, onde a população exibe seus vestuários cheios de personalidade.
Esse sketchbook da Dessin não para de me impressionar.
Os telefones em nossas mãos foram desenhados e eles exibem um universo digital mergulhado em projetos, layouts e percepções estéticas pensadas por um ou mais artistas. Habitamos um mundo amplo e profundo no qual qualquer percepção está pronta para identificar. Podemos distinguir uma a uma, cada criação em torno de nós, concebidas para a contemplação. Penso nas referências como uma matéria muito além da navegação no Pinterest ou em um prompt para a IA. Nossos sentidos captam e armazenam centenas de informações diariamente. Expressar isso é uma prática bastante intelectual.
 
Um exemplo claro do que digo, é a ilustração do post. Nela, vemos Vivi Morbi e Etrom em uma pose junto à já conhecida motocicleta "Vespa". Ao observar os primeiros esboços, percebi uma possível comparação com desenhos de dois artistas bem distintos. O Kazushi Hagiwara de "Bastard!" e "Flash Gordon" pelas mãos de Boris Vallejo. Um prompt rápido em uma IA pode trazer detalhes sobre ambos. Porém, minha atenção foi atraída justamente por eu não estar buscando uma releitura ou ter inspiração em lugar algum. Estava guardado no bunker de minha mente... pronto para se manifestar.
Resultado final. Fiquei contente.
Etrom é um personagem com o qual me envolverei mais e mais. Ele me faz ter boas recordações de outros tempos, quando eu fanzinava - e cometi alguns fiascos editoriais -, na metade para o final dos anos 1990. Era muito bom trabalhar com personagens em universos criados com referências bem pessoais. Sem "jornada de herói", estruturas de narrativas, etc. Lembro-me de ter como principal influência, na época, a Tank Girl de Alan Martin e Jamie Hewlett. Foram bons tempos e, de uma certa forma, estão se repetindo para mim (com todos os traumas superados). Já a Vivi, ela é uma querida e permanecerá nas suas aventuras. Observando com lentes mais precisas... até tenho uma galeria de personagens bem extensa. Mereço congratulações.

Encontro na literatura erótica uma forma de ir contra as imposições do cotidiano. Aqui está a minha desobediência particular, meu protesto e...


Encontro na literatura erótica uma forma de ir contra as imposições do cotidiano. Aqui está a minha desobediência particular, meu protesto e dissidência. Dou as costas às religiões, desafio a moral, juntamente às normas vindas de quaisquer direções. Silenciosamente, a cada leitura encontro o prazer, a cada narrativa uma paixão nasce, atinge o clímax e torna a alma mais aguçada. Afundo meu olhos nas páginas de Anais Nin, Fanny Hill e muitos outros autores de Dois Reais obtidos em um sebo vagabundo.
Esboço digital. Tomou mais tempo do que o pretendido.
Cada situação e descrição invocam sensações deliciosamente confusas dentro de mim. A imaginação imerge na mais movediça sensualidade e também no proibido - em todo o impossível fora da ficção. Conheço aventureiros sexuais, mulheres deliciosas e ousadas... ambientes impregnados de poesia, promiscuidade e liberdade. Os livros abrem caminhos para mais e mais fantasias, e então não há como voltar.
Lidenart um pouco desleixada.
Alço voos altos demais para me contentar com distâncias pequenas. Por isso, repito: encontro na literatura erótica uma forma de combater as restrições. Como um outsider, prossigo dono de minhas próprias regras... tanto na conduta, mais ainda dentro de minha mente. Sou amoral e contra os sistemas comumente defendidos por todos os grupos sociais. Sigo uma política exclusiva, constituída de convicções à prova de influências externas, rechaçando todas as tentativas de virem com discursos "prontos" para o meu lado.
Resultado final. Há uma certa simplicidade nesta imagem.
Em distinção à maioria, sustento a indiferença e o desdém diante do teatro imbecil com o qual me nego a participar. Sinto náuseas ao presenciar a cegueira de homens e mulheres no esforço constante para seguirem direitinho as "cartilhas" de pertencimento. Rebanhos enganados, massas sendo ludibriadas por ideais corrompidos desde muito tempo. Individualidades usurpadas, pensamentos mantidos em cárceres mentais sob a influência de ideologias só compreendidas nas suas superfícies. Todos enganados pela traiçoeira publicidade.
 
Seus manifestos públicos e argumentações políticas não servem para nada senão propagar os interesses de entidades realmente possuidoras do poder. Os representantes de "opostos", dizendo-se como água e óleo, na verdade servem à mesma origem. Revezam-se em ciclos, dentro intervalos de tempo calculados, em prol de interesses multibilionários. O único ato supostamente capaz de trazer a esperança da mudança (a nossa, daqui em baixo), deveria ser o voto. No entanto, já não vale de coisa alguma - o controle está sempre nas mesmas mãos.

Fazia incursões no meio da madrugada com o walkman na cintura e fones nos ouvidos. Não me importava com a economia, com o Estado, tampouco c...


Fazia incursões no meio da madrugada com o walkman na cintura e fones nos ouvidos. Não me importava com a economia, com o Estado, tampouco com as opiniões das pessoas. Parava diante das danceterias e ficava ali, olhando o movimento, porém completamente alheio. Minhas caminhadas pela cidade eram assim. Nas cassetes, uma das bandas de Heavy Metal mais importantes: Judas Priest. Sempre com o play na coletânea de três discos passados para as fitas.

Arte original.
Esse também era o meu jeito de lidar com a fritura psicológica aplicada por meus companheiros e companheiras de classe no segundo grau. Judas Priest (meu guia) rodava nos ouvidos e nada poderia me afetar. Porque eu era algo muito parecido com o "eu" atual: um outsider. Renegava religiões, ignorava a política e não dava a mínima às pessoas fora de meu meu circulo familiar. Isso porque não haviam amigos. Ser um "lobo solitário" era a minha conduta por livre escolha.
Lápis totalmente sem lapidação.
Além de invocar essas memórias da outra juventude, Judas Priest divide o topo das bandas aqui em Oniria. Cada disco, um deleite, uma experiência... por mais que se repita, ainda traz o prazer só possível pela boa música. Dentre meus prediletos, está o álbum "Painkiller". Alguns dizem que essa obra originou o chamado "Power Metal". Seja lá como chamam o gênero, eu apenas considero como música de qualidade. Forte, veloz, imponente. Uma pancada musical.
 
Mark Wilkinson foi o artista responsável pela criação da arte da capa de Painkiller. É um capista bastante conhecido por ter trabalhado em inúmeros outros títulos (não somente de Heavy Metal). E eu venho com a minha versão de Painkiller, usando a Vivi Morbi de minha webcomic. Coloco Vivi para substituir a figura do anjo pilotando a sua motocicleta demoníaca em um céu apocalíptico. O veículo agora é a Vespa da Vivi, vista bastante em sua webcomic.
No sketchbook, a aplicação de cores.
A execução dessa arte foi, como sempre, em um sábado à tarde, após um cafezinho. Interessante como percebi a passagem do tempo durante esse desenho. Iniciei às 15h e terminei às 18h30. Para mim, havia se passado quinze minutos. Fiquei realmente bem envolvido nesse projeto e não vi o tempo passar. Tudo fluiu naturalmente - do lápis, arte-final, à aquarela. Tenho me dado bem com as cores. Usar meu godê traz alguma satisfação. Relaxo bastante com a mistura de cores, o contato com os materiais, acompanhados da aplicação no papel.
 
Resultado final. Valeu a tarde de sábado.
O café, dessa vez, foi um L'or Ultimo Gourmet Pouch. É um investimento compensador. Estou passando essa marca apenas aos sábados e domingos. Durante a semana, passo café Pilão Tradicional. O L'or fica para quando o momento exige. Por se tratar de um café gourmet, não dá para consumir do dia a dia, pois isso pode gerar um rombo nas finanças. Gosto da torra máxima por trazer um sabor marcante e bem intenso. Habituei-me, desde muito tempo, a dispensar o açúcar - prefiro não alterar o sabor do café. E para acompanhar, vai uma fatia de bolo ou pães com margarina. Vê-se o bom gosto aqui em Oniria, sempre.

Nos meus afazeres de início de ano aqui na Oniria (meu estúdio), achei por bem colocar dentre as prioridades as atividades no blog. Da pranc...

Nos meus afazeres de início de ano aqui na Oniria (meu estúdio), achei por bem colocar dentre as prioridades as atividades no blog. Da prancheta vim até a minha workstation de edição para o post de partida de 2026. Claro, trazendo para cá uma nova página de meu sketchbook, resultante de uma tarde de sábado após um delicioso café.
 
"The Ultimate Sin" é o quarto álbum do saudoso Ozzy Osbourne, ex-vocalista da lendária banda Black Sabbath e uma figura mitológica da música e do Rock. Merecidamente, Ozzy é reconhecido por sua vida e obra. Poder, vitalidade e irreverência marcaram a trajetória do ídolo. Tenho, em minha coleção de CDs, algo do legado do artista na carreira solo. Um recorte que vai de Blizzard of Ozz, até No More Tears. Por causa da admiração às várias facetas de Ozzy, resolvi trazer uma releitura da capa de um disco tocado muitas vezes aqui em Oniria.

A obra surgindo no meu estilo e com meus personagens.

Sobre até onde conheço a carreira de Ozzy, ele foi acompanhado por grandes músicos ao longo de sua discografia, resultando em uma sequência irretocável de discos. Ou seja: teve os cuidados merecidos e à altura de seu talento e valor como personalidade e vocalista. Em "The Ultimate Sin", temos um trabalho primoroso da primeira à última faixa, sem ressalvas. "The Shot in the Dark", canção responsável por finalizar volume, está dentre as melhores de minha vida.

O Sketchbook é o aliado do artista.

O poder da música de Ozzy ultrapassa fronteiras e nos leva a estados de grande satisfação. Para mim, significados insubstituíveis a manter comigo eternamente. Eu explico. Durante uma de minhas piores crises, reergui-me ao som de The Shot in the Dark. Ela se repetia na playlist no Winamp de meu computador... Tive a compreensão e apoio de meu pai. Tive os remédios. E, aliados a eles, os papos no mIRC e MSN com amigos os quais nunca vi os rostos e que os identificava apenas por seus nicknames. Tudo decisivo para tornar possível a minha recuperação prontamente, após alguns meses de sofrimento.
 
Embora eu seja grato por tudo isso, vamos falar um pouco mais do presente momento. Mostro aqui, ao visitante de meu blog, a releitura da capa de The Ultimate Sin, originalmente criada pelo ilustrador de fantasia e Scifi, Boris Vallejo. Experimento novas técnicas de pintura e, com um certo egocentrismo, substituo as figuras da arte original por meus personagens: Vivi Morbi e Etrom. Ambos de minha HQ Vivi Morbi, publicada digitalmente.

No ano passado perdemos Ozzy poucas semanas após seu último show. Assisti a despedida com grande satisfação em ver um homem liberto das limitações do mundo, corajoso e forte. Mesmo não sendo um exemplo a ser seguido por sua vida pessoal, Ozzy foi um guerreiro até o último instante. Seu trabalho fez o mundo conhecer um grande poder criativo e ficar face à inovações fatídicas na história da música. O grande "Príncipe das Trevas" participou de um fenômeno, foi capaz ajudar a trazer ao mundo o gênero musical que tanto adoro: o Metal.

Fiquei sabendo da existência de William Blake através do livro "O Dragão Vermelho" de William Thomas Harris. O enredo dá segmento ...


Fiquei sabendo da existência de William Blake através do livro "O Dragão Vermelho" de William Thomas Harris. O enredo dá segmento à história de "O Silêncio dos Inocentes", obra mais conhecida pela adaptação cinematográfica. Eu aos 15 anos. Embora tão jovem, recém saído da puberdade, isso não me impediu de apreciar profundamente a leitura. Foram muitos picos de euforia e entusiasmo percorrendo aquelas páginas.
 
Quem leu O Dragão Vermelho sabe o papel de Blake dentro da trama. A sua "participação" é um dos elementos principais. E também, quem sabe em linhas gerais do tratado em O Silêncio dos Inocentes, será capaz de pressupor quais as circunstâncias. A curiosidade por conhecer Blake, como poeta e artista visual, perdurou por décadas. Era muito difícil encontrar publicações dele por aí. Quando havia, era inviável a um jovem desempregado obter.

O esboço digital foi executado com brush de pencil.

Em 2005 pude (cheio de alegria) comprar online, "Canções da Inocência e Canções da Experiência" - edição comentada pela Disal Editora. Um presente auto congratulado para o natal daquele ano. Encontrei no volume o singelo e o sutil. Muito diferente de minhas expectativas como leitor. O impacto entre minhas referência sobre a obra, e suas menções na cultura pop, teve uma reação contrária ao esperado.

Artefinalizando digitalmente. Foram algumas horas.


Porém, após reler algumas vezes, percebi gradualmente impressões vigorosas. Junto aos comentários da edição, encontrei-me com Blake de verdade. Entendi as suas jogadas misteriosas com as palavras. Cada mecanismo para conduzir a leitura. Principalmente porque o livro mantém os escritos originais em inglês, amplificando a experiência poderosamente. Tanto, que hoje resolvi ilustrar a segunda estrofe do poema "Noite", em Canções da Inocência. Segue a transcrição:
 
Night

Farewell, green fields and happy groves,
Where flocks have took delight.
Where lambs have nibbled silent moves
The feet of angels bright;
Unseen they pour blessing
And joy without ceasing,
On each bud and blossom,
And each sleeping bosom.

Resultado final. Cores e sombras.

Acontece uma autoanálise nesse trecho. Tenho percepções visuais. E coloquei no papel (dessa vez no suporte digital) as imagens segundo o experienciado. Não sei se haveria aprovação do autor, mas é o jeito de me expressar. Seria uma ambição verdadeiramente pretensiosa alcançar as visões de Blake como ele realmente tinha em sua rica imaginação. Mesmo assim, arrisco-me. Por gosto, por liberdade e prazer puro.
 
Quero finalizar com um pensamento anotado aqui num canto da mesa. O ser humano costuma julgar, trazer críticas mordazes aos demais. Eu e você fazemos isso, ainda repreendendo tais pensamentos. O homem precisa afirmar o seu lugar e poder, precisa de uma posição na vida através da qual tenha segurança, mesmo errando. Muitos recorrem à palavra "hipocrisia" à prática referida. Isso também é um julgamento. O homem é contraditório. E não estou defendendo nada nem ninguém, sou muito problemático com relações sociais. Ser contraditório, é humano...

A revista Heavy Metal estreou em 1977, na França e posteriormente surgiu o licenciamento para publicação nos EUA, chegando ao Brasil em 1995...

A revista Heavy Metal estreou em 1977, na França e posteriormente surgiu o licenciamento para publicação nos EUA, chegando ao Brasil em 1995. Estive com algumas edições nacionais em mãos, adquiridas nos sebos da cidade. Simon Bisley, Milo Manara, Moebius dentre outros grandes nomes fizeram parte da galeria da Heavy Metal. Era uma revista de alto nível. As temáticas da época se caso estivessem sendo veiculadas hoje, talvez gerariam boicotes e críticas por parte de pessoas sensíveis na internet. Compreensível, passaram-se décadas. Não acompanhei como se manteve a linha editorial após os anos 90... 
Algumas escolhas foram abandonadas da fase do esboço.

O nome "Heavy Metal" já diz um pouco de seu conteúdo. Fantasia, horror e sci-fi, dentre violência, comportamentos perigosos e erotismos. As capas traziam imagens fortes e impactantes. Neste post, tento colocar a minha personagem Vivi Morbi em uma situação semelhante àqueles temas... está feito, ao meu modo, satisfatoriamente. Ainda sobre a revista, ela foi derivativa do movimento musical do seu momento. A ousadia e a rebelião estavam em alta dentre os jovens. Transgredir era obter uma boa reputação entre as tribos urbanas e nas noites. O Heavy Metal trazia o poder da desobediência e no desafio à moral: uma forma de pôr abaixo qualquer agente repressor.

Já como gênero musical, há quem pense no Heavy Metal como um estilo capaz de pôr em jogo o bem-estar de pessoas com problemas psiquiátricos. Isso devido à sua sonoridade e as suas letras... tudo levado ao extremo, ao desequilíbrio. Para mim, o oposto. O Heavy Metal (e seus subgêneros) me faz bem. O Metal Extremo e sua estética me causam familiaridade, identificação e prazer. Escolho muito bem minhas audições e se eu sentisse qualquer problemática, pararia imediatamente. Só tenho muita empolgação e deleitosas apreciações.

Me dei muito bem com esse sketchbook. 

As drogas, como um todo, estão no lado de fora de minha vida. Tenho aversão, à exceção de meus remédios para a saúde mental. O carinho da família e os cuidados de meu médico provém meus melhores dias. Mesmo com a vida ligada ao Heavy Metal e ao Rock, nos quais as atitudes e lemas são ousados... Sou pura calmaria. Dispenso excessos, ficando apenas com a música.

Opto apenas por ser correto. Ser justo. Honesto. A tranquilidade da vida pacata tem importância preferencial à qualquer outro ímpeto. Encontro a aventura nas criações artísticas. Não quero agito, não quero muito falatório, nem badalação. O encontro comigo mesmo basta. Tenho o afeto familiar, dos amigos e do Tander, meu animal de estimação. A adoração à autoestima e à arte nutrem meu ser como uma força vital externa e interna. Sou confiante assim. Embora frágil, também tenho uma fortaleza dentro de mim.

Na finalização, muitos improvisos.
Para não fazer minha imagem como a de um "santo", revelo já ter sido fumante e ter usado muito álcool… hoje os vejo como hábitos questionáveis e incompatíveis comigo. Porém, tenho o café... Aos sábados à tarde, costumo tomar café ir até minha prancheta para sessões de desenho. Antes do desenho, sempre o café. Para mim, uma bebida sagrada e saborosa. Por tê-lo deste modo, não faço abuso do café. O seu efeito e sabor são para momentos especiais, para a fagulha da criatividade e o relaxamento... às vezes, para uma boa conversa.

  Todos os ritos e crenças à periferia das religiões dominantes, no ocidente, são considerados paganismo. Qualquer fé politeísta também é as...

 

Todos os ritos e crenças à periferia das religiões dominantes, no ocidente, são considerados paganismo. Qualquer fé politeísta também é assim tida. As tradições do Norte Europeu, anteriores à ascensão do cristianismo, cultivavam práticas comunitárias, adorações às divindades da natureza e aos atos heroicos inspirados em seus Deuses. Na contemporaneidade temos organizações de crenças nomeadas como "Neopagãs", resgatando os laços trazidos da antiguidade.
 
Esboço solto. Tenho usado o lápis e não lapiseiras.
O Paganismo enaltece a vida simples e as tradições e cultos ancestrais. Assim como nos povos originários brasileiros, e demais sul americanos, antes da chegada dos colonizadores contaminados pelo catecismo Apostólico Romano. No Antigo Egito, a primeira grande civilização de milênios antes do marco cristão, a cultura e a arte estavam interligadas à religiosidade politeísta - exemplo que se repete nos demais povos africanos. Similaridades possíveis de se encontrar nas tradições Xintoístas da Ásia, onde também se destaca o Budismo. 
 
Do Xintoísmo, distingue-se semelhanças à filosofia de Espinoza, na qual a espiritualidade interliga tudo como parte de um só ser: a Natureza. Visão que ilumina meus pensamentos místicos e convicções metafísicas. Encontro, na contemplação de um Universo miraculoso, a crença no panteão das mais belas leis regendo a realidade - poderes imensuráveis, nos quais me identifico e me diluo.
 
As folhas do novo sketchbook têm se mostrado ideais para pintura com aquarela.
Jamais tive proselitismos em minha formação de caráter, o que considero uma bênção. Os ritos segundo os evangelhos, seguidos aqui no Brasil, não fizeram parte das fases galgadas no meu progredir da vida. Sendo assim, permito-me ser e agir sob as glórias dos Deuses e na liberdade de meu próprio juízo, obtidos através do legado moral familiar, da cultura e das consultas às filosofias surgidas ao longo da história.
 
Com toda a inspiração pagã, ilustro este post. Aqui vemos Eliza Morbi, mãe de Vivi Morbi na pele da imortal (mas humana) Sibila. Acompanhamos a lindíssima Eliza/Sibilia na travessia da cratera do Vesúvio, levada por Caronte em seu barco. Essa passagem - como descrito por Virgílio - foi onde Enéas ofereceu sacrifícios às divindades infernais. Sibila padece de sua maldição de ser tão longeva em dias de vida, como na quantidade de grãos em um punhado de areia - que porém, não decorre para a juventude eterna, mas sim em um terrível envelhecimento.
Finalizado. Foi bom ter voltado com as cores.
Desenho Eliza a poupando de tal agonia, oferecendo-a apenas a beleza e o glamour de Sibila, juntamente às peculiaridades sombrias já conhecidas sobre a família Morbi. A Sibila mitológica tem, como ofício etéreo, descrever o destino de todos em folhas caídas de uma árvore. Tornando-se assim, a senhora do destino, da existência e dos nomes de nascimento da humanidade. Nossas histórias de vida são frases encantadas lançadas pelo Tempo, como um livro escrito ao acaso e à efemeridade.



Trago um motivo originado de uma comemoração do mês que atravessamos. Trata-se da mudança de estação do hemisfério norte das Américas. Uma t...

Trago um motivo originado de uma comemoração do mês que atravessamos. Trata-se da mudança de estação do hemisfério norte das Américas. Uma tradição celta apropriada posteriormente pela religião católica e convertida em tema festivo nos países Anglo. Dentre nós, brasileiros, reconhecemos o ensejo como "Dia das Bruxas", as quais não há ligação alguma dentre os festejos.
 
Para mim, o Halloween tem o seu valor. Um bom pretexto para fazer tudo o que já faz parte de meus hábitos do início ao encerrar do ano: assistir filmes de Terror e ouvir Metal Extremo, bem como fazer desenhos temáticos. O lado sombrio permanece, a despeito de quaisquer incentivos sazonais externos. Pertenço a esses costumes, tradicionalmente, desde muito jovem.

Cada vez menos detalhes no esboço.

Também não sou um morcego a todo instante... preciso usar minhas máscaras sociais para lidar com o mundo. Quando em convívio com os que povoam o meu cotidiano, desempenho a minha (falta de) habilidade social perfeitamente. E acredite: quanto mais me esforço em ser sociável, parece que estou fazendo ao contrário.

Sketchbook novo. Nova marca, melhor papel.

Sou um personagem de Halloween na alma, porém sem fantasias para afastar os maus espíritos... mas sim, a rigor, para repelir pessoas. Dada essa oportunidade do ano, permito-me transparecer, neste texto e ilustração, as minhas peculiaridades nada elogiáveis. Essas, talvez só aceitas neste momento e pelos simpatizantes da referida data celebrada.
 
Comentei dia destes, com minha mãe que, ainda com minha personalidade e predileções, as produções artísticas de meu portfólio aparentam alegria e graciosidades. As tentativas de demonstrar um lado sinistro são sempre falhas. Esse traço paradoxal até que me agrada. Muitas vezes a expressão bem-humorada e um timbre menos sombrio pode tornar agradável cada Halloween que passa.

Resultado final. Mexi digitalmente no segundo plano (estava muito intenso).

Talvez, a razão de minha arte seja mesmo a de divertir, alegrar ou (quem sabe) trazer beleza para perto dos olhos e aquecer os corações. Porque sinto bem-estar ao desenhar. Essa atividade faz meus dias correrem com mais entusiasmo. Quando posso parar tudo e pegar um lápis e papel, minha mente se torna limpa. As preocupações se esvaem... qualquer sentimento ruim dá lugar à tranquilidade. Pensando bem, os aspectos alegres fazem bastante sentido. Em última análise, perfeitamente compreensível.

O motivo para este post não poderia ser mais pessoal. Vemos aqui a Vivi em uma prática magística, executando um ritual onde há a alteração d...

O motivo para este post não poderia ser mais pessoal. Vemos aqui a Vivi em uma prática magística, executando um ritual onde há a alteração do mundo ao seu redor e a mudança da realidade através de manipulações místicas de elementos do inconsciente. Estaria a própria Vivi me evocando para a desenhar dentro dessa cena?
 
Meus primeiros contatos com a magia foram pelas mãos de meu saudoso tio Pê, presenteando-me com um exemplar de O Alquimista da autoria de Paulo Coelho. Com essa leitura, fui movido a buscar outro de seus best-sellers: o Diário de um Mago. Dessas duas obras, eu, um jovem de quatorze anos, absorvi os conceitos do que seria a magia com facilidade.

Lápis feito sem muita preocupação em detalhar.

Essa compreensão quase sempre era o assunto entre mim e um amigo da mesma idade, também interessado pelo misticismo. Nossas conversas eram longas e submersas na curiosidade sobre o oculto. Não o vi mais em uma dessas esquinas responsáveis por nos afastar de algumas pessoas. Mas após aquela época meus interesses tiveram guinadas e tomaram outras veredas. Por outro lado, a magia permanecia - ainda que oculta nos detalhes. 

A satisfação do sketchbook.

Voltei-me a ela outra vez em minha segunda internação em uma clínica psiquiátrica, lá nos anos 90. Na rotina da instituição havia a terapia ocupacional, entre o café da manhã e o almoço. Era quando eu me sentia melhor e mais relaxado. Dentre as atividades terapêuticas, eu tentava desenhar, porém alguns medicamentos me impediam por causa da impregnação. Por isso busquei a leitura. Dentre o acervo da clínica, descobri as HQs do Sandman e da coleção Vertigo. Novamente a magia se manifestava. E foi com intensidade.

Já em dois mil e dez, mais estável, embora com acompanhamento profissional e medicado, pude ir morar sozinho pela primeira vez. Diante da liberdade e por ter privacidade a meu favor, resolvi mergulhar na magia como eu sempre desejei. Enriqueci a imaginação com filmes, séries e livros sobre o tema e fui em busca de informações mais verídicas. Acessei as fontes possíveis: podcasts, blogs e livros - todas elas me trouxeram as maravilhas de um caminho rico em imaginação e descobertas.

Resultado final.

Os exercícios se mostraram difíceis, mas obtive resultados muito expressivos. Ainda assim, não fui um praticante persistente, as experiências duraram poucos anos. Isso porque percebi que as práticas, os estágios e as provações como magista me traziam desequilíbrios psíquicos, bem como prejuízos à saúde mental - esta que eu tanto luto para preservar. Não fui forte para perseverar e evoluir. Escolhi então, manter apenas um olhar místico sobre meu cotidiano e contemplar a magia presente no dia a dia. Ser artista já é algo mágico.